Efeitos dos testes nucleares da Guerra Fria ainda prejudicam milhões

Enquanto crescia em Salt Lake City, Utah, nas décadas de 1950 e 60, Mary Dickson estava entre os milhões de estudantes americanos ensinados a “abaixar e se proteger” em caso de uma guerra nuclear.

“Eu só me lembro de pensar: “Isso não vai nos salvar de uma bomba””, ela disse à CNN. Naquela época, Dickson não sabia que armas nucleares estavam sendo detonadas no estado vizinho de Nevada enquanto os EUA testavam o novo arsenal.

Ela vivia na direção do vento, para onde grande parte da precipitação radioativa dos testes atmosféricos se deslocava. Dickson conta que teve câncer de tireoide; sua irmã mais velha faleceu de lúpus aos 40 anos; sua irmã mais nova foi recentemente informada que seu câncer intestinal se espalhou para outras partes do corpo; e suas sobrinhas também têm problemas de saúde.

A idosa também disse que uma vez contou 54 pessoas em seu bairro de infância, numa área de cinco quarteirões, que sofreram de câncer, doenças autoimunes, defeitos congênitos ou abortos espontâneos.

Não está claro o que causou esses cânceres, já que é difícil atribuir responsabilidade direta, mas é geralmente aceito pela comunidade médica que a exposição à radiação aumenta o risco de câncer, dependendo do nível de exposição.

“A exposição à radiação aumenta a chance de desenvolver câncer, e o risco aumenta conforme a dose aumenta: quanto maior a dose, maior o risco”, afirma a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, citando estudos que acompanham grupos de pessoas expostas à radiação.

Coletivamente, aqueles que viviam e foram expostos nos estados ao redor da região de testes de Nevada, incluindo Arizona, Utah, Oregon, Washington State e Idaho, ficaram conhecidos como “downwinders” (pessoas afetadas pela radiação).

“É devastador”, disse Dickson, uma dramaturga e defensora dos sobreviventes dos testes de armas nucleares nos EUA. “Não posso dizer quantos amigos eu tive, e seus cânceres voltaram… O dano psicológico não vai embora. Você passa o resto da vida preocupada que cada nódulo, cada dor significa que voltou.”

“A Guerra Fria para nós nunca terminou”, a idosa acrescentou. “Ainda estamos vivendo com seus efeitos.”

‘Nós compartilhamos as mesmas histórias’

A era nuclear começou há 80 anos quando os EUA lançaram duas bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki próximo ao fim da Segunda Guerra Mundial.


Ataque com bomba nuclear realizado pelos EUA no Japão no final da Segunda Guerra Mundial • REUTERS / FRANKLIN D. ROOSEVELT PRESIDENTIAL LIBRARY / HIROSHIMA PEACE MEMORIAL MUSEUM HANDOUT / HIROSHIMA CITY HANDOUT / RUSSIAN DEFENCE MINISTRY / OSTOK NEWS AGENCY

As bombas mataram cerca de 110.000 pessoas instantaneamente e ajudaram a desencadear a corrida armamentista da Guerra Fria, na qual os EUA e a União Soviética, bem como Reino Unido, França e China, correram para desenvolver armas nucleares cada vez mais poderosas.

Eles realizaram mais de 2.000 testes entre 1945 e 1996, cada um estabelecendo seu próprio poder de dissuasão nuclear que, dependendo do seu ponto de vista, sustenta ou prejudica a segurança mundial até hoje.

E como no Japão, onde milhares de pessoas morreram de ferimentos e doenças relacionadas à radiação após 1945, esses testes nucleares prejudicaram as vidas, a saúde e a terra das pessoas que viviam nas proximidades.

Posteriormente, Índia, Paquistão e Coreia do Norte também realizaram seus próprios testes, antes que uma série de tratados internacionais praticamente interrompesse a prática. Apenas a Coreia do Norte testou armas nucleares no século XXI – mais recentemente em 2017 – e nenhum teste atmosférico ocorreu desde 1980.

Ainda assim, “não é um problema do passado”, disse Togzhan Kassenova, pesquisadora não residente da Carnegie Endowment for International Peace, uma organização que estuda política nuclear.

Embora essas armas nucleares tenham sido detonadas há décadas, “muitas pessoas ainda estão pagando o preço”, acrescentou ela à CNN.

‘Nós compartilhamos as mesmas histórias’

As primeiras potências nucleares testaram suas bombas em lugares que consideravam remotos e pouco povoados, frequentemente em territórios que haviam colonizado, longe de seus principais centros populacionais.

“Suas prioridades eram tais que acreditavam que os testes eram absolutamente necessários por razões de segurança nacional”, isse Alex Wellerstein, professor associado do Instituto de Tecnologia Stevens em Nova Jersey, à CNN.

“E se você toma isso como uma verdade absoluta e todo o resto é um tipo de “quem sabe, não sabemos, provavelmente vai ficar tudo bem”, é muito fácil chegar a uma situação onde sua resposta padrão é fazê-lo”, acrescentou o professor.

Os EUA conduziram seus testes nucleares principalmente em Nevada e nas Ilhas Marshall, no Oceano Pacífico central; a União Soviética no Cazaquistão e no arquipélago do Oceano Ártico de Novaya Zemlya; o Reino Unido na Austrália e no atol de Kiritimati, anteriormente conhecido como Ilha Christmas; a França na Argélia e na Polinésia Francesa; e a China em Lop Nur, um local remoto no deserto na província ocidental de Xinjiang.

A União Soviética testou mais de 450 bombas em seu local de testes de Semipalatinsk no Cazaquistão de 1949 a 1989, em cidades ultrassecretas, construídas para testes nucleares.

Os moradores das proximidades “não sabiam realmente toda a extensão disso”, disse Aigerim Seitenova, especialista em justiça nuclear e igualdade de gênero que cofundou a Coalizão Qazaq Nuclear Frontline.

“Muitos dos meus parentes faleceram muito cedo quando eu era criança e eu não entendia por que eles estavam morrendo aos 40 e 50 anos”, disse a especialista, acrescentando que ela e muitos membros de sua família sofrem de problemas crônicos de saúde. “Na época, eu achava que eles eram velhos.”

Anos de sigilo em torno do local de testes deram lugar a anos de tabu, disse Seitenova, acrescentando que fazer um documentário sobre o impacto intergeracional do legado nuclear do Cazaquistão nas mulheres foi um “processo de cura” para ela, enquanto buscava restaurar a autonomia delas.

E Seitenova acrescenta que quando o filme foi traduzido para o japonês e exibido em Hiroshima, ficou claro para ela que as “experiências do povo cazaque não são únicas.”

“Compartilhamos as mesmas histórias da Polinésia Francesa do Pacífico, das Ilhas Marshall, da Austrália”, disse a pesquisadora.

“Nós somos os principais especialistas no impacto humanitário das armas nucleares”, acrescentou, lamentando que, enquanto cientistas do ocidente se consideram especialistas, “aqueles que realmente viveram as experiências nem sempre são levados a sério.”

Compreender o impacto total dos testes nucleares é difícil – é algo tanto contestado quanto difícil de quantificar, dada a dificuldade em atribuir problemas de saúde a uma única causa e em avaliar as consequências sociais mais amplas para as comunidades.

Vários estudos tentaram medir esses efeitos, frequentemente produzindo resultados com grandes incertezas.

Um estudo realizado pelo Instituto Nacional do Câncer Americano (NCI) em 1997 estimou que os testes de armas nucleares realizados acima do solo em Nevada entre 1951 e 1962 teriam produzido entre 11.300 e 212.000 casos excedentes de câncer de tireoide ao longo da vida.

Uma revisão subsequente dessas mesmas descobertas concluiu que o número de casos excedentes provavelmente estava no limite inferior da faixa.

Estudos realizados na região ao redor do local de testes de Semipalatinsk descobriram que as taxas de mortalidade por câncer e as taxas de mortalidade infantil durante o período mais intensivo de testes nucleares, de 1949 a 1962, eram mais altas do que em outras partes do Cazaquistão.

Kassenova disse que quando retorna à região, encontra crianças que são descendentes de quarta ou quinta geração das pessoas que viveram naquele período e têm problemas de saúde que atribuem à contaminação nuclear.

Outro estudo do NCI realizado nas Ilhas Marshall projetou que entre 0,4% e 3,4% dos cânceres ao longo da vida entre os marshalleses que viveram lá entre 1948 e 1970 podem ter sido causados por exposição à radiação.

Esse número sobe para entre 28% e 69% para as 82 pessoas que viviam nos atóis de Rongelap e Ailinginae, sobre as quais a precipitação radioativa caiu como neve após um teste de 1954 com o codinome Castle Bravo.

O equivalente a 7.232 bombas de Hiroshima

Além de impactar a saúde das pessoas, esses testes tiveram consequências ambientais significativas. Entre 1946 e 1958, os EUA realizaram 67 testes nucleares conhecidos nas Ilhas Marshall, que tiveram um rendimento explosivo total equivalente a 7.232 bombas de Hiroshima.


Hiroshima após o ataque da bomba atômica em 1945. • Prisma by Dukas/Getty Images

Os EUA realocaram os marshalleses que viviam nas olhas oceânicas ou perto delas que estavam sendo usados como locais de teste, e alguns ainda não retornaram à sua terra natal, apesar das tentativas nas décadas de 1970 e 1980.

Milhares de marshalleses vivem agora em Springdale, no Arkansas, onde preservam a cultura de seu povo, e também em comunidades menores em Oklahoma, Kansas e Missouri.

Cinco ilhas foram parcial ou completamente destruídas, e partes das Ilhas Marshall “ainda estão contaminadas” quase 70 anos depois, disse Ivana Nikolić Hughes, que faz parte de uma equipe de pesquisa da Universidade Columbia que tem investigado os níveis de radiação lá.

Alguns isótopos radioativos se concentram em fontes de alimentos, Hughes explicou à CNN, citando o processo de “bioacumulação.”

“Encontramos valores muito altos de um isótopo chamado Césio-137 nos alimentos, e esse isótopo é quimicamente semelhante ao potássio”, disse ela. “Como as plantas continuam absorvendo nutrientes do solo, elas vão bioacumular.”

Os caranguejos-do-coqueiro que vivem nas ilhas “comem muitos cocos, então a equipe literalmente conseguia apontar um detector de radiação para um caranguejo-do-coqueiro, e ele apresentava leituras altas”, disse ela.

“O solo tem certa quantidade, os cocos concentram ainda mais, e então o caranguejo-do-coqueiro concentra ainda mais”. Isso aconteceria se houvesse humanos naquela ilha, consumindo alimentos cultivados localmente de forma regular”, acrescentou a pesquisadora.

Os EUA limparam algumas partes das Ilhas Marshall, e onde isso foi feito, Hughes disse que os pesquisadores “não encontraram evidências de contaminação atualmente”.

Mas na construção da infraestrutura necessária para os testes nucleares e nos esforços subsequentes de limpeza, os EUA removeram a vegetação com bulldozers, alterando os ecossistemas locais.

Grande parte dos resíduos foi despejada na ilha de Enewetak em uma cratera sem revestimento coberta com uma tampa de concreto, hoje conhecida como Domo Runit; a Comissão Nacional Nuclear das Ilhas Marshall e as Nações Unidas expressaram preocupações sobre sua segurança.

O Departamento de Energia dos EUA afirmou em um relatório de agosto de 2024 que os programas de monitoramento contínuo mostram que “não há potencial para aumento dos riscos à saúde dos residentes de Enewetak devido às condições atuais ou futuras, considerando os impactos das mudanças climáticas, incluindo uma falha hipotética do Domo Runit”.

O Departamento de Energia ainda não respondeu ao pedido de comentário da CNN.

Um acerto de contas contínuo

À medida que os efeitos a longo prazo dos testes nucleares têm sido cada vez mais reconhecidos, alguns “downwinders” (pessoas afetadas pela radiação) têm recebido compensações, cujo valor varia de local para local.

As Ilhas Marshall receberam pagamentos de compensação dos EUA, mas afirmam que estes são insignificantes em comparação com a verdadeira dimensão dos danos.

As autoridades do Cazaquistão incluíram 1,2 milhão de pessoas em seu esquema de compensação, segundo o Instituto Norueguês de Assuntos Internacionais, garantindo-lhes certos benefícios de saúde e financeiros.

Nos EUA, mais de 27.000 “downwinders”, receberam mais de US$ 1,3 bilhão em pagamentos da Lei de Compensação por Exposição à Radiação (RECA).

Essa lei foi estabelecida em 1990 e prorrogada no mês passado, embora a ativista Mary Dickson tenha afirmado que reunir os registros de 50 anos necessários para apresentar uma reivindicação é difícil.

Desde que os EUA expandiram seu programa de compensação para “downwinders” em julho, ela e sua irmã mais nova se tornariam elegíveis para compensação do governo.

França e Reino Unido, por sua vez, há muito tempo minimizam o impacto de seus programas de testes nucleares.

Apenas em 2010 a França reconheceu uma conexão entre seus testes e os problemas de saúde dos argelinos e polinésios franceses expostos à radiação, e só em 2021 cerca de metade desses requerentes recebeu compensação.

Em 2021, o presidente francês Emmanuel Macron evitou pedir desculpas aos polinésios franceses pelo impacto dos testes nucleares, embora tenha admitido que os testes “não foram limpos” e afirmado que a França tem uma “dívida” com o território insular.

Enquanto o Reino Unido orienta os veteranos de testes nucleares a solicitarem compensação através de um esquema geral de pensões de guerra, instituições de caridade para veteranos ainda pedem que ex-militares, seus filhos e netos recebam compensação específica.

Eles afirmam ter sofrido problemas de saúde como resultado de sua participação nas operações britânicas de testes nucleares.

Um porta-voz do Ministério da Defesa disse à CNN que o departamento está “comprometido em trabalhar com veteranos de testes nucleares e ouvir suas preocupações”, e que o trabalho “investigando questões não resolvidas relacionadas a registros médicos” está em andamento.

Oitenta anos após o uso devastador de armas nucleares no Japão, e décadas após o período mais intenso de testes superficiais, o acerto de contas nuclear mundial está longe de terminar.

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