A dona de casa Jackeline Crespo descobriu que tinha anemia por deficiência de ferro há mais de uma década. Embora cuidasse bem da alimentação, a moradora de Belo Horizonte (MG), hoje com 49 anos, percebeu os primeiros sinais da doença, como palidez no rosto, fadiga constante e dificuldade de concluir tarefas simples, que acabaram a levando ao diagnóstico.
Embora o problema aparentemente fosse fácil de resolver, a reposição de nutrientes com suplementação e uma dieta rica em ferro não surtiram o efeito esperado.
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Por quase dez anos, mesmo com acompanhamento médico, a ferritina permanecia em níveis baixos. Jackeline seguia o tratamento padrão, baseado em comprimidos de ferro, mas o corpo não respondia.
“Me sentia como um zumbi. Não tinha vontade de fazer nada, era muito esquisito. Meus cabelos eram fracos e meus lábios, esbranquiçados. Vivia desanimada, não tinha forças para nada, sentia cansaço extremo. Fazia o que tinha que fazer e logo corria para a cama”, relata. A rotina intensa para cuidar do filho, autista nível 3 de suporte, a mantinha em constante estado de cansaço.
Anemia não é diagnóstico menor
A anemia por deficiência de ferro ocorre quando o corpo não consegue produzir hemoglobina em quantidade suficiente. A condição afeta milhões de pessoas no mundo e é considerada a causa mais comum de anemia, respondendo por metade dos casos.
O hematologista Flávio Naoum lembra que, muitas vezes, a doença é subestimada. “Ela pode ser sinal de uma enfermidade mais grave, como câncer intestinal ou doença da medula óssea. Além disso, a anemia frequentemente aumenta o risco de complicações e de mortalidade de doenças de base, como a insuficiência cardíaca, doença renal, doenças pulmonares e câncer, entre outras”, afirma.
Entre os sintomas estão fraqueza, tontura, falta de ar, palpitação, unhas quebradiças e até dificuldades cognitivas. Para muitos, esses sinais se confundem com estresse ou depressão, o que atrasa o diagnóstico e o início do tratamento.
Os sintomas também são um problema para os pacientes (em sua maioria, gestantes e mulheres com menstruação excessiva). Eles impactam diretamente a rotina, reduzindo a concentração e produtividade.
Quadro de Jackeline só melhorou após uso intravenoso de ferro
A virada no tratamento
Por mais de uma década, Jackeline continuou tentando fazer o tratamento apenas com os suplementos. Foi apenas no início de 2024 que ela experimentou uma transformação. Após buscar atendimento na rede privada, teve acesso à carboximaltose férrica, um ferro de alta dose administrado por via intravenosa. Em apenas uma infusão, os resultados foram visíveis.
“Com a reposição de ferro intravenoso, veio uma mudança de vida. Voltei a ter vitalidade, mais disposição e senti melhora no aspecto físico. A palidez sumiu, cabelos e unhas se fortaleceram e a memória ficou mais nítida. Estou fazendo atividade física, o que antes era impossível. O cansaço sumiu e me sinto muito mais disposta para as tarefas do dia a dia”, conta.
Jackeline hoje faz acompanhamento médico a cada seis meses. Desde a infusão, não sente peso do cansaço extremo. “Tenho outra vida”, resume. O que parecia uma batalha interminável contra a fadiga se transformou na possibilidade de futuro com qualidade.
Tratamento ainda não está disponível no SUS
Em 2023, o Ministério da Saúde anunciou a incorporação do ferro intravenoso no SUS, com prazo de 180 dias para estar disponível. Dois anos depois, a medicação ainda não chegou plenamente à rede pública — o protocolo de atendimento à anemia não foi atualizado para incluir o tratamento.
Em abril de 2024, o SUS incorporou também a derisomaltose férrica para o tratamento de pacientes adultos com anemia por deficiência de ferro, independente da causa, após falha no tratamento, intolerância ou contraindicação aos sais de ferro oral. Sua plena adoção também depende da atualização dos protocolos de atendimento que, segundo o Ministério da Saúde, está “em fase de elaboração”.
“Há situações em que estes tratamentos de resposta rápida são cruciais, como para pacientes que têm cirurgia ou parto programado dentro de algumas semanas. Muitos pacientes migram para o ferro intravenoso por não terem melhora com o ferro oral ou por conta de efeitos colaterais”, explica Naoum.
O ferro de alta dose representa avanço importante, pois concentra o tratamento em uma única aplicação de 15 minutos. O hematologista destaca que a adesão é maior com esse formato. “Comparado a meses de comprimidos diários ou várias infusões em baixas doses, a reposição única garante resultado rápido e consistente”, conclui.
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Fonte: Metrópoles