O presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu usar a “influência da presidência para pôr um fim imediato” à guerra do Sudão, que, segundo estimativas do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), já deslocou quase 12 milhões de pessoas.
Trata-se de um desenvolvimento significativo para uma crise que mostra poucos sinais de se encerrar, com alguns especialistas expressando otimismo cauteloso de que a intervenção do presidente americano possa ajudar a interromper os combates.
No entanto, os especialistas também alertam que um fim a longo prazo para o conflito não é algo fácil de ser alcançado.
Trump, que se apresenta como um pacificador, disse na semana passada que “não estava em seus planos se envolver” no fim da guerra.
Contudo, após um pedido pessoal do príncipe herdeiro saudita Mohammad bin Salman, o líder republicano afirmou que se envolveria na questão.
“Eu achava que era algo completamente fora de controle e sem sentido. Mas agora vejo o quanto isso é importante para você e para muitos dos seus amigos aqui presentes, e vamos começar a trabalhar no Sudão”, disse ele em um evento ao lado do líder saudita em Washington, DC, na última quarta-feira (26).
A guerra entre as SAF (Forças Armadas Sudanesas) e as RSF (Forças de Apoio Rápido) já dura mais de dois anos.
Esse conflito aniquilou milhares de vidas e deu origem à maior crise humanitária do mundo.
Ambos os lados foram acusados pelos EUA de crimes de guerra; o governo Biden declarou que as RSF cometeram genocídio.
Os EUA têm trabalhado há anos com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Egito, no âmbito do chamado “Quad”, para tentar mediar o fim dos combates e estabelecer um caminho para uma transição democrática no Sudão.
Os esforços do governo Trump foram liderados pelo enviado especial Massad Boulos, aliado do presidente americano e sogro de sua filha, Tiffany Trump.
Mas, até o momento, a Casa Branca se manteve fora das negociações, o que mudou com o compromisso direto de Trump na semana passada, gerando certo otimismo entre os especialistas.
“Acho que há uma série de objetivos de curto prazo muito necessários e importantes que Trump pode ajudar a alcançar”, disse Cameron Hudson, analista da África e ex-diretor para Assuntos Africanos no Conselho de Segurança Nacional.
“Não há dúvida, e acho que ele está numa posição única para fazer isso.”
Ainda assim, uma semana após seu compromisso, não está claro como o presidente pretende usar sua influência pessoalmente.
Os esforços diplomáticos continuam estagnados; o general de mais alta patente do Sudão rejeitou a última proposta de cessar-fogo neste fim de semana e acusou os mediadores de parcialidade.
“Não há indícios de uma mudança em Washington. Não há indícios de que agora haverá uma estratégia”, disse Kholood Khair, diretora do centro de pesquisaq Confluence Advisory, fundado em Cartum.
“É extremamente improvável” que haja avanços em relação a uma trégua antes do final do ano, disse Khair à CNN.

Pressões que cercam os EUA
O conflito tem sido fortemente alimentado por apoio externo. Há apelos para que os EUA aumentem a pressão sobre os Emirados Árabes Unidos, que têm sido amplamente acusados, inclusive por legisladores americanos e um painel de especialistas da ONU, de fornecer armas às RSF.
Os Emirados Árabes Unidos negam essa acusação.
“O Sudão se tornou, de fato, o teatro de guerra para muitos dos aliados dos EUA na região”, disse Khair.
Há dúvidas sobre se o próprio Trump está preparado para pressionar aliados, particularmente os Emirados Árabes Unidos.
Khair observou que o governo “tem interesses com Abu Dhabi especificamente relacionados a Israel”, já que os Emirados Árabes Unidos são um país integrante dos Acordos de Abraão.
A diretora do centro de pesquisa argumentou que os acordos, que Trump considera uma conquista fundamental de sua política externa, são “uma prioridade muito maior” para o presidente americano do que o Sudão.
A família do líder americano também tem laços comerciais com os Emirados Árabes Unidos, observou Khair.
A Organização Trump está faturando milhões com acordos de licenciamento e negócios com criptomoedas com empresas apoiadas pelo governo no país, informou a Forbes no mês passado.
Os EUA não pressionaram publicamente os Emirados Árabes Unidos, mas o Secretário de Estado Marco Rubio disse recentemente que “algo precisa ser feito para cortar as armas e o apoio que as Forças de Apoio Rápido (RSF) estão recebendo”.
O governo Trump está “bem posicionado para mediar entre as potências externas, porque todas essas potências são suas aliadas. É a Turquia, o Egito, o Catar, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos”, disse o analista Cameron Hudson.
“Trump nasceu para esse momento”, acrescentou. “Ele nasceu para o momento de fechar um acordo de elite entre os grandes. O que ele não nasceu para fazer é arregaçar as mangas e se envolver nos detalhes da política sudanesa.”
Jeffrey Feltman, ex-enviado especial dos EUA para o Chifre da África, afirmou que os comentários de Trump foram “promissores” e “encorajadores”.