O agronegócio e a indústria são os grandes “vencedores” do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, afirmaram especialistas ouvidos pela CNN Brasil nesta sexta-fiera (9).
O tratado, que se arrastava há 26 anos, foi destravado, com a ratificação no Conselho Europeu após a Itália abrir caminho para a formação de maioria. Era necessário que ao menos 15 dos 27 países, representando ao menos 65% da população do bloco, fosse favorável.
Após a assinatura formal, cada país precisará ratificar internamente o acordo. No Brasil, o texto passará por revisão jurídica e análise do Congresso, enquanto na União Europeia poderá seguir diretamente ao Parlamento Europeu, caso seja submetido apenas a sua parte comercial.
Apesar do otimismo com a aprovação do texto pelo Conselho Europeu, especialistas ponderam que os benefícios devem ser sentidos apenas no médio e longo prazo — e ainda sob limitações impostas por mecanismos de proteção ao setor agrícola europeu.
Ou seja, o efeito prático do tratado só deve ser sentido a partir da próxima década, com reduções tarifárias graduais e possíveis travas às exportações do bloco sul-americano.
Ao CNN Money, o gerente de comércio internacional da BMJ, Josemar Franco, explicou que o principal ponto de negociação neste momento são as salvaguardas criadas pela União Europeia para evitar um aumento excessivo de importações agrícolas vindas do Mercosul.
O mecanismo, segundo ele, busca responder à resistência de produtores europeus, sobretudo da França, preocupados com a competitividade do agro brasileiro.
“Nós temos um agronegócio bastante competitivo e que assusta os produtores europeus. Por conta disso, a maior resistência sempre foi do do agronegócio francês e do agro europeu. Então, o que a Comissão Europeia, a União Europeia tem tentado fazer nos últimos meses é criar um mecanismo que está sendo chamado de salvaguarda”, explica.
O especialista aponta que os maiores ganhos para o Brasil devem se concentrar no agronegócio, especialmente em produtos como soja e seus derivados, café, carnes, pescados e celulose. E destacou, ainda, que esses são também os setores que mais geram resistência dentro da Europa, por ameaçarem a competitividade do produtor local.
Franco ressaltou, contudo, que o processo poderá ter validação bilateral, o que permitirá que Brasil e União Europeia implementem o tratado antes da ratificação por todos os países do Mercosul.
“Isso agilizaria os ganhos para os exportadores brasileiros, sem depender do ritmo dos demais parceiros.”
Apesar das salvaguardas e da morosidade nos trâmites, o especialista acredita que o acordo representa um marco para o comércio exterior brasileiro.
Para o professor de Relações Internacionais da ESPM, Roberto Uebel, “setores de alimentos podem se tornar competitivos face ao produto europeu”.
“A partir do segundo semestre, se o processo seguir o seu curso e não tiver nenhuma interpelação judicial, se os parlamentos também não atrasarem essa aprovação e mais explicitamente a partir de 2027, aí a gente consegue sentir isso nas prateleiras de supermercados”, complementou.
Esperança para o parque industrial brasileiro
Na visão do vice-presidente da Eurochambers Brazil, Graziano Messana, a análise sobre acordo Mercosul-UE deve se dar sob uma ótica mais ampla que a dos produtos agrícolas.
“Do meu ponto de vista não tem que se analisar exclusivamente nesse fluxo das matérias agrícolas, mas muito mais amplo: [benefício para as indústrias] farmacêutica, tecnologia, equipamentos industriais”, afirmou ao CNN Novo Dia.
Messana destacou que o impacto econômico mais expressivo tende a vir dos equipamentos industriais.
“Essa categoria é a que mais provavelmente vai alterar a balança comercial, vai ser exatamente os equipamentos industriais maquinários que entram.”
Ele citou o exemplo de empresas italianas que exportam ao Brasil soluções de nanoirrigação e tecnologia aplicada à agricultura de precisão, com potencial para elevar a produtividade em um dos maiores territórios agrícolas do mundo.
Ao citar que o Brasil tem uma área cultivada equivalente à soma da Espanha e de Portugal, afirmou também que a tecnologia europeia pode trazer ganhos importantes de eficiência para o campo brasileiro.
A CNI (Confederação Nacional da Indústria) classificou a aprovação do acordo Mercosul-União Europeia como “um passo significativo para avançar na inserção internacional do Brasil e para o fortalecimento da indústria nacional”.
Ainda de acordo com a CNI, o acordo deve promover impactos mais significativos sobre investimentos bilaterais ao “ampliar a previsibilidade regulatória, reduzir barreiras tarifárias e fortalecer disciplinas relacionadas à facilitação de comércio e investimentos”.
Já a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) avalia que o tratado mudará “substancialmente” a forma com que as empresas do Mercosul e da UE fazem negócios, importam, exportam e investem entre si.
Só em 2024, a UE foi destino de US$ 48,2 bilhões das exportações brasileiras, ou 14,3% do total exportado pelo país, e permanece como o segundo principal mercado externo do Brasil. No mesmo período, o bloco respondeu por US$ 47,2 bi das importações brasileiras (ou 17,9% do total).
Segundo estimativa da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia pode gerar um aumento de cerca de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras e ampliar a diversificação da pauta exportadora brasileira.
Hoje, mais de um terço das vendas do Brasil para a União Europeia é formado por produtos da indústria de transformação, o que tende a ganhar ainda mais espaço com a redução das barreiras comerciais.
