Análise: por que o ataque dos EUA à Venezuela relembra ação no Panamá

Agora que os Estados Unidos tomaram medidas decisivas para remover o presidente venezuelano Nicolás Maduro do poder, as inevitáveis ​​comparações já estão surgindo. Os críticos invocam o Iraque. Os apoiadores apontam para o Panamá.

Ambas as analogias são tentadoras — embora uma seja mais apropriada do que a outra.

Há mais de duas décadas, em 24 de janeiro de 2004, desembarquei em Bagdá como consultor jurídico, alocado a um escritório no que era então conhecido como Zona Verde.

Chovia e fazia frio, e minha mochila foi jogada em uma poça d’água do avião C-130 que acabara de fazer uma curva em espiral para alcançar a pista sem risco de fogo terrestre.

Jovens soldados americanos me cumprimentaram enquanto entrávamos em um veículo, saíamos em alta velocidade do complexo aeroportuário e seguíamos por uma estrada chamada de “Rodovia da Morte” devido a carros-bomba e atiradores de elite.

Em que enrascada nosso país se meteu?

Esse foi meu primeiro pensamento naquela viagem angustiante, e ao longo de um ano no país e, posteriormente, durante administrações presidenciais subsequentes, frequentemente aconselhei prudência e cautela ao definir os objetivos da política externa americana.

Isso é especialmente verdadeiro quando se trata do uso do poder militar, cuja aplicação deve estar atrelada a objetivos claros, articulados e alcançáveis.

Você pode pensar que a situação atual na Venezuela serve como um alerta para que paremos antes que nosso país se encontre novamente em uma situação que não compreendemos totalmente e com consequências incertas.

Não tão rápido.

A situação na Venezuela hoje tem pouca comparação com o Iraque e se assemelha muito mais ao Panamá de 35 anos atrás, antes da operação militar dos EUA para remover um ditador e instalar um governo eleito que gozava de amplo apoio da população.

Essa missão foi um sucesso, e o Panamá hoje é uma democracia funcional, amigável aos EUA, embora não isenta de problemas que vão do crime à corrupção.

Maduro agora enfrenta julgamento em Nova York, assim como Noriega enfrentou na Flórida, onde o ex-líder do Panamá foi condenado por crimes como tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

Será possível que estejamos tão paralisados ​​pela experiência do Iraque (e do Afeganistão) a ponto de perdermos a oportunidade de melhorar a vida dos venezuelanos e a estabilidade em nosso próprio hemisfério, nos moldes do Panamá?

Venezuela e Panamá: pretextos Semelhantes

Em 20 de dezembro de 1989, o presidente George H.W. Bush dirigiu-se à nação para definir a justificativa por trás da missão que acabara de ordenar ao Panamá.

Ele explicou que o Panamá era governado por “um narcotraficante indiciado”, Manuel Noriega, que em breve “seria levado à justiça” nos EUA.

Bush acrescentou que Noriega anulava eleições democráticas e que os vencedores dessas eleições logo assumiriam o poder na Cidade do Panamá, provavelmente com amplo apoio.

O regime de Noriega também ameaçava e prejudicava americanos, incluindo a recente morte de um soldado americano, baleado pelos serviços de segurança de Noriega.

Por fim, Bush discutiu a importância estratégica do Canal do Panamá e o compromisso de Washington com os tratados existentes, que era improvável que Noriega honrasse.

Nesse contexto, Bush explicou os objetivos da missão: “Salvaguardar a vida dos americanos, defender a democracia no Panamá, combater o narcotráfico e proteger a integridade do Tratado do Canal do Panamá”.

Duas semanas depois, Noriega estava sob custódia dos EUA, o governo de oposição eleito assumiu o poder e as forças americanas começaram a deixar o país.

Recentemente, conversei com um ex-companheiro militar americano que participou dessa operação, saltando de paraquedas no Panamá antes do discurso de Bush.

“De todas as nossas missões militares desde a Coreia”, disse-me ele, “o Panamá deve ser considerado uma das mais bem-sucedidas. Ir lá agora é ver um país democrático muito próspero”.

Agora, vejamos a Venezuela.

Até este fim de semana, o país era governado por Nicolás Maduro, que, assim como Noriega, enfrenta acusações criminais em tribunais americanos.

As acusações contra Maduro são mais extensas. Sua acusação de 2020 em Nova York inclui crimes de narcoterrorismo, narcotráfico e corrupção.

Ele também é acusado de chefiar a organização de tráfico de drogas “Cartel de los Soles”, que o Departamento de Estado acaba de classificar como Organização Terrorista Estrangeira. Washington ofereceu uma recompensa de US$ 50 milhões para quem puder ajudar a capturar Maduro.

Assim como Noriega, Maduro também invalidou eleições sucessivas e reprimiu violentamente movimentos democráticos dentro do país.

Os EUA e a maioria de seus aliados ocidentais reconhecem a oposição liderada por María Corina Machado como o governo legítimo da Venezuela. Partidos de oposição, segundo observadores independentes, receberam 70% dos votos nas eleições presidenciais venezuelanas de 2024, que Maduro alega ter vencido.

Por fim, Maduro, assim como Noriega, ameaçou e prejudicou cidadãos americanos, além da paz e segurança regionais.

Nos últimos anos, assim como seus aliados no Irã, Maduro efetivamente manteve americanos como reféns para manobras diplomáticas com os EUA.

Esses reféns incluem um marinheiro americano de férias na Venezuela, residentes americanos de longa data no país e executivos da Citgo, subsidiária americana da estatal petrolífera venezuelana, que residem nos EUA.

Em 2023, Maduro ameaçou invadir a vizinha Guiana, aliada dos EUA, e recentemente reivindicou a soberania sobre dois terços do território guianense, justificando a reivindicação — assim como Putin fez com o leste da Ucrânia — com base em uma história distorcida e um referendo manipulado.

Diferenças significativas

Com Maduro sob custódia dos EUA, não há garantia de que as autoridades locais em todo o país cooperarão com um novo governo, o que abre a possibilidade de guerras civis e uma violenta disputa por poder e recursos.

Maduro alegou ter recrutado uma milícia de milhões para resistir a qualquer operação apoiada pelos EUA, e embora essa alegação possa ser exagerada, devemos presumir que os cartéis de drogas podem tentar tomar o controle do interior do país, em vez das forças da democracia que esperamos ou desejamos ver prevalecer.

A Venezuela é mais de dez vezes maior que o Panamá.

O contexto geoestratégico também é muito diferente. Em 1989, a União Soviética havia entrado em colapso com a queda do Muro de Berlim seis semanas antes da invasão americana do Panamá.

Os Estados Unidos eram a grande potência indiscutível do mundo, e não havia razão para esperar ou antecipar que outras superpotências resistissem à operação militar ou fizessem seus próprios movimentos em outros hemisférios.

Atualmente, a Rússia e a China estão alinhadas com Maduro, e seus líderes podem citar a operação americana na Venezuela como mais uma justificativa para perseguir suas próprias ambições hemisféricas contra a Ucrânia e Taiwan, respectivamente.

Quais são as opções de Trump?

Em novembro, o presidente Donald Trump afirmou, de forma enigmática, que havia “tomado uma decisão” sobre o curso de ação na Venezuela.

Isso ocorreu após a CNN noticiar diversas reuniões de alto nível na Casa Branca com comandantes militares sobre opções em decorrência do aumento da presença naval na costa e dos exercícios conduzidos pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA em áreas rurais e urbanas de Trinidad e Tobago.

Maduro pareceu interpretar essas ações como uma possível intervenção americana, convocando suas milícias e, ao mesmo tempo, apelando para o diálogo, chegando a cantar o hino da paz “Imagine”, de John Lennon, em um comício recente.

Para aumentar a confusão, o governo não havia deixado claros seus objetivos. O Secretário de Defesa, Pete Hegseth, descreveu a missão como uma para “defender nossa pátria, eliminar o narcoterrorismo do nosso hemisfério e proteger nossa pátria das drogas que estão matando nosso povo”.

Embora não houvesse menção em declarações oficiais à restauração da democracia na Venezuela, ou ao objetivo de destituir Maduro do poder, Trump declarou que os dias de Maduro estavam “contados”, e os destacamentos militares, incluindo o grupo de ataque de porta-aviões mais avançado do arsenal americano, sugeriam objetivos que iam além das metas publicamente declaradas da Operação Lança do Sul.

Sem dúvida, a destituição de Maduro é do interesse dos EUA e do povo venezuelano. Antes do governo de Maduro e de seu antecessor, Hugo Chávez, o país estava entre os mais prósperos da América do Sul, enquanto hoje é um caos, com a renda per capita tendo caído 72%, um dos colapsos econômicos mais acentuados da história.

Mais de três quartos da população, segundo pesquisas confiáveis, se opõem ao seu governo, e há um governo de oposição preparado para assumir o poder, caso tenha a oportunidade.

Até este fim de semana, apesar de sua retórica belicosa, o governo Trump parecia relutante em buscar a mudança de regime por meios militares, uma linha de ação que contrariaria sua declarada aversão a conflitos militares prolongados.

Essa prudência talvez fosse justificada. As diferenças com o Panamá, neste momento, superam as semelhanças ou a esperança de que uma operação contra Maduro seja tão bem-sucedida quanto a realizada no Panamá há mais de três décadas.

Mas o governo não deve abrir mão da influência que construiu sobre Maduro e sim usá-la com eficácia.

Na ausência de uma operação militar para depor Maduro, o governo poderia ter exigido que ele entregasse figuras-chave das redes de narcotráfico dentro da Venezuela, retirasse as reivindicações sobre a Guiana e se comprometesse a realizar novas eleições com observadores internacionais, que ele certamente perderia.

Indo além, o governo poderia ter exigido seu exílio, talvez para a Rússia, onde ele poderia se juntar a Bashar al-Assad, o ex-presidente da Síria, outro ditador que destruiu seu próprio país em busca de poder pessoal.

Para que qualquer uma dessas medidas funcionasse, o governo precisaria garantir o apoio de aliados, inclusive na América do Sul, algo que até o momento não conseguiu ou não quis fazer em relação aos seus objetivos na Venezuela.

Em todo caso, antes que os EUA embarcassem em uma política para substituir Maduro, deveria ter havido um debate no Congresso para ponderar os prós e os contras.

Conclusão

Após duas décadas de prolongados conflitos militares no exterior, os EUA estão, com razão, cautelosos com qualquer nova iniciativa que vise a mudança de regime.

Essa cautela é justificada, mas, na Venezuela, os argumentos a favor da remoção de Maduro do poder têm sido convincentes e traçam mais paralelos com o Panamá do que com o Iraque. Contudo, a próxima fase política poderá se revelar muito mais complexa do que a operação militar deste fim de semana.

Brett McGurk é analista de assuntos globais da CNN e escreve uma coluna regular, trazendo uma perspectiva única e privilegiada, “de dentro da sala”, para telespectadores e leitores.

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