Por Frank Vidal
Tião Bocalom não é um acidente da política. Ele é, na verdade, um produto típico dela. Sua trajetória ajuda a explicar por que, para muitos, sua chegada ao comando de Rio Branco representa menos uma renovação e mais a consolidação de tudo aquilo que a população diz querer superar: o político profissional, moldado por décadas de cargos, disputas eleitorais e mudanças de partido conforme a conveniência.
Bocalom não nasceu politicamente no Acre. Veio do Paraná, onde já havia iniciado sua vida pública como vereador. Ou seja, desde cedo, escolheu a política como caminho principal. Ao se mudar para o Acre, não rompeu com esse roteiro: aprofundou-o. Pouco tempo depois, tornou-se prefeito de Acrelândia, cargo que ocupou por três mandatos, construindo uma carreira quase ininterrupta no poder.
Desde então, sua vida pública seguiu um padrão claro: estar sempre em disputa. Foi secretário de Estado, tentou o Governo do Acre por mais de uma vez, disputou a Prefeitura de Rio Branco em eleições sucessivas, concorreu a deputado federal e, após derrotas acumuladas, finalmente venceu a eleição municipal da capital em 2020. Não por apresentar algo radicalmente novo, mas por insistir até que o cenário lhe fosse favorável.
Esse percurso é acompanhado por um histórico extenso de trocas partidárias. Bocalom passou pela ARENA, PSDB, DEM, PSL, PP e, mais recentemente, pelo PL. Para o leitor atento, isso não sugere evolução política, mas adaptação oportunista. A cada eleição, um novo discurso; a cada conjuntura, uma nova sigla. O projeto parece sempre o mesmo: permanecer relevante e competitivo dentro do jogo político.
Ao assumir a Prefeitura de Rio Branco, o que muitos esperavam era que a longa experiência resultasse em uma gestão técnica, madura e focada em resultados. O que se viu, porém, foi uma administração marcada pela politização constante, pelo discurso ideológico e por conflitos desnecessários, enquanto problemas estruturais da cidade seguem sem solução efetiva.
Saneamento precário, infraestrutura deficiente, serviços públicos que não avançam na velocidade prometida e uma sensação generalizada de que as prioridades estão deslocadas do cotidiano do cidadão comum. Para quem vive a cidade, a impressão é de que a prefeitura funciona mais como palco político do que como centro de soluções práticas.
Outro ponto que pesa negativamente é a condução administrativa baseada em alianças e confiança política, e não necessariamente em critérios técnicos. Nomeações, decisões estratégicas e prioridades pouco explicadas alimentam a percepção de aparelhamento da máquina pública. Para o leitor, isso reforça a ideia de que a gestão serve antes ao projeto político do grupo no poder do que às necessidades reais da população.
O estilo pessoal de Bocalom também contribui para o desgaste. Seu perfil é confrontacional, pouco aberto ao diálogo e à escuta social. Em vez de unir a cidade em torno de consensos mínimos, frequentemente aposta na polarização como método. Isso cansa. Especialmente o cidadão que não vive de política e só espera que ela funcione.
No conjunto, o que se desenha é a figura de alguém que sempre viveu da política, circulou por diferentes partidos, ocupou cargos, disputou eleições sucessivas e, ao chegar ao posto mais importante de sua carreira, não conseguiu romper com a lógica que o formou. A política segue sendo o fim, e não o meio.
Por isso, para muitos leitores, Tião Bocalom não simboliza mudança, mas continuidade. Não representa avanço, mas repetição. Sua trajetória e sua gestão reforçam a percepção de que a política, quando dominada por profissionais do poder, tende a se afastar das pessoas e a se fechar em si mesma.
Nesse sentido, a crítica se sustenta: Bocalom acaba sendo visto como a pior coisa que a política poderia nos dar — não por um erro isolado ou uma polêmica específica, mas por representar, em essência, um modelo esgotado, personalista e incapaz de entregar o que realmente importa para a cidade e para quem vive nela.
Franck Vidal
Jornalista/Empresário

