Autoridades dos Estados Unidos discutiram o envio de pagamentos aos habitantes da Groenlândia como parte de uma tentativa de convencê-los a se separar da Dinamarca e potencialmente se unir aos EUA, segundo quatro fontes familiarizadas com o assunto.
Embora o valor exato e a logística de qualquer pagamento não estejam claros, autoridades americanas, incluindo assessores da Casa Branca, discutiram valores que variam de US$ 10 mil a US$ 100 mil por pessoa, disseram duas das fontes, que pediram anonimato para discutir deliberações internas.
A ideia de pagar diretamente aos residentes da Groenlândia, um território ultramarino da Dinamarca, oferece uma explicação de como os EUA poderiam tentar “comprar” a ilha de 57 mil habitantes, apesar da insistência das autoridades em Copenhague e Nuuk de que a Groenlândia não está à venda.
Essa tática está entre os vários planos que estão sendo discutidos pela Casa Branca para a aquisição da Groenlândia, incluindo o possível uso das forças armadas americanas.
Mas corre o risco de parecer excessivamente transacional e até mesmo degradante para uma população que há muito debate sua própria independência e sua dependência econômica da Dinamarca.
“Chega! Basta de fantasias sobre anexação”, escreveu o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, em uma publicação no Facebook no domingo (4), após o presidente dos EUA, Donald Trump, ter afirmado novamente a jornalistas que os EUA precisam adquirir a ilha.
Líderes europeus reagem
Líderes em Copenhague e em toda a Europa reagiram com desdém aos comentários de Trump e de outros funcionários da Casa Branca, que reivindicaram seu direito à Groenlândia nos últimos dias, especialmente considerando que os EUA e a Dinamarca são aliados da Otan, vinculados por um acordo de defesa mútua.
Na terça-feira (6), França, Alemanha, Itália, Polônia, Espanha, Reino Unido e Dinamarca emitiram uma declaração conjunta, afirmando que somente a Groenlândia e a Dinamarca podem decidir sobre assuntos relacionados às suas relações.
Questionada sobre as discussões para a compra da ilha, incluindo a possibilidade de pagamentos diretos aos groenlandeses, a Casa Branca remeteu a Reuters às declarações da secretária de imprensa, Karoline Leavitt, e do secretário de Estado Marco Rubio na quarta-feira (7).
Durante uma coletiva de imprensa, Leavitt reconheceu que Trump e seus assessores de segurança nacional estavam “analisando como seria uma possível compra”. Rubio disse que se reuniria com seu homólogo dinamarquês na próxima semana, em Washington, para discutir a Groenlândia.
A embaixada da Dinamarca se recusou a comentar, e o escritório de representação da Groenlândia em Washington não respondeu a um pedido de comentário.
Discussões sobre a Groenlândia
Trump argumenta há tempos que os EUA precisam adquirir a Groenlândia por diversos motivos, incluindo a riqueza em minerais necessários para aplicações militares avançadas. Ele também afirmou que o Hemisfério Ocidental, de forma geral, precisa estar sob a influência geopolítica de Washington.
Embora as deliberações internas sobre como tomar a Groenlândia ocorram entre os assessores de Trump desde antes de ele assumir o cargo, há um ano, houve uma renovada urgência após seu governo capturar o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, em uma operação no fim de semana, segundo fontes familiarizadas com as deliberações internas.
Uma fonte afirmou que assessores da Casa Branca estavam ansiosos para aproveitar o impulso da operação contra Maduro para alcançar outros objetivos geopolíticos de longa data de Trump.
“Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional, e a Dinamarca não poderá fazer isso”, disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One no domingo.
Uma das fontes familiarizadas com as deliberações da Casa Branca disse que as discussões internas sobre pagamentos únicos não eram necessariamente novas.
No entanto, essa pessoa afirmou que elas se tornaram mais sérias nos últimos dias, e assessores estavam considerando valores mais altos, com um pagamento de US$ 100 mil por pessoa, o que resultaria em um pagamento total de quase US$ 6 bilhões, sendo uma possibilidade real.
Muitos detalhes de quaisquer pagamentos potenciais não estavam claros, como quando e como eles seriam distribuídos caso o governo Trump optasse por essa via, ou o que exatamente seria esperado dos groenlandeses em troca.
A Casa Branca afirmou que a intervenção militar é possível, embora autoridades também tenham dito que os EUA preferem comprar a ilha ou adquiri-la por meios diplomáticos.
Acordo de livre associação
Entre as possibilidades que estão sendo consideradas pelos assessores de Trump, segundo um funcionário da Casa Branca afirmou na terça-feira, está a tentativa de firmar um tipo de acordo com a ilha chamado Pacto de Livre Associação.
Os detalhes precisos do acordo, que até o momento foi estendido apenas às pequenas nações insulares da Micronésia, Ilhas Marshall e Palau, varia conforme o signatário.
Mas o governo dos EUA geralmente fornece muitos serviços essenciais, como entrega de correspondências e proteção militar. Em troca, as forças armadas dos EUA operam livremente nos países signatários, e o comércio com os EUA é, em grande parte, isento de impostos.
Acordos deste tipo já foram firmados com países independentes, e a Groenlândia provavelmente precisaria se separar da Dinamarca para que tal plano fosse implementado. Em teoria, pagamentos poderiam ser usados para incentivar os groenlandeses a votarem pela independência ou a aderirem a um acordo após votação.
Embora as pesquisas mostrem que uma esmagadora maioria dos groenlandeses deseja a independência, as preocupações com os custos econômicos da separação da Dinamarca, entre outras questões, impediram a maioria dos legisladores groenlandeses de convocar um referendo sobre a independência.
As pesquisas também mostram que a maioria dos groenlandeses, embora aberta à separação da Dinamarca, não deseja fazer parte dos EUA.
