Epidemia invisível: 1.186 trabalhadores foram afastados no AC por adoecimento mental no ano passado, o dobro de  2024

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Sob o jugo de metas implacáveis e jornadas exaustivas, o número de afastamentos por transtornos mentais dobrou no estado; ansiedade já motiva mais da metade dos casos.

O cenário do mercado de trabalho no Acre revela uma face cruel e silenciosa: o esgotamento psicológico. Dados recentes do AcrePrevidência e da delegacia do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) obtidos pela reportagem acendem um alerta vermelho. No último ano, 1.186 trabalhadores acreanos foram afastados de suas funções por incapacidade laboral decorrente de transtornos mentais e comportamentais — um salto alarmante em relação aos 519 casos registrados em 2024.

O Rosto da Crise: Mulheres na Linha de Frente

Embora o problema atinja diversas categorias, os dados revelam um recorte de gênero nítido: as mulheres compõem a maioria esmagadora dos casos. Elas enfrentam a “tempestade perfeita”: a pressão desmedida no ambiente corporativo somada à carga histórica da jornada dupla. No Acre, o adoecimento feminino reflete uma estrutura que exige produtividade máxima sem oferecer o suporte mínimo à saúde emocional.

Metas “Impiedosas” e o Fim do Descanso

A causa por trás dos números aponta para uma mudança de postura agressiva por parte de comerciantes e empresários. Relatos de sindicatos descrevem uma busca “irredutível e impiedosa” por metas frequentemente inalcançáveis. O que antes era estímulo virou coerção, transformando o ambiente de trabalho em um terreno fértil para a ansiedade, que já responde por mais de 50% dos afastamentos entre 2024 e 2025.

“É fundamental que as autoridades de saúde e os empregadores tenham consciência para a importância da prevenção dos transtornos mentais no local de trabalho”, alerta o sindicalista Alberto Rodrigues.

A Queda de Braço: Escala 5×2 vs. Resistência Patronal

O colapso da saúde mental no Acre não é um fato isolado, mas um reflexo do que ocorre em todo o Brasil. O agravamento da situação tornou-se o principal combustível para o debate sobre a redução da jornada de trabalho.

Atualmente, o projeto de lei que visa instituir a escala 5×2 (garantindo o sábado e o domingo como folgas) enfrenta uma barreira rígida no Congresso Nacional. De um lado, organizações de classe defendem que o descanso é a única forma de frear a epidemia de transtornos; do outro, a bancada que representa os patrões resiste, insistindo na manutenção da escala 6×1, onde o trabalhador dispõe de apenas um dia para se recuperar de uma semana de pressões extremas.

Projeções Sombrias

Se o ritmo atual for mantido, as projeções das classes trabalhadoras para o restante de 2026 são pessimistas. Sem uma intervenção direta nas políticas de gestão das empresas e uma mudança na legislação que privilegie a saúde física e mental, o Acre continuará assistindo à retirada forçada de sua força de trabalho das prateleiras, escritórios e balcões, deixando para trás um rastro de traumas e laudos médicos.


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