Em meio a tensões crescentes no Oriente Médio, as negociações entre Estados Unidos e Irã ganham novos contornos. Após o presidente americano, Donald Trump, afirmar que os países tiveram “conversas muito boas” e que os iranianos querem “muito” fechar um acordo, especialistas questionam quais seriam os reais termos dessa possível negociação.
Fernando Brancoli, professor de Relações Internacionais da UFRJ, explica que o principal problema é a falta de clareza sobre o que está sendo negociado. “O problema desse acordo é que ninguém tem muita certeza de quais são os termos dele”, afirma o especialista. Segundo Brancoli, inicialmente Trump argumentava que o objetivo era desmantelar o programa nuclear iraniano e iniciar processos de salvaguarda, permitindo inspeções externas no país. No entanto, as declarações americanas têm sido inconsistentes.
Pressão militar e econômica
O cenário de negociação ocorre em um contexto de forte pressão militar. “Existe uma série de embarcações americanas se movimentando em direção à região do Irã, além de tropas americanas no entorno do país”, explica Brancoli, destacando que o acordo está sendo costurado sob ameaças explícitas de uso da força.
Um ponto crucial destacado pelo professor é a situação econômica fragilizada do Irã. “Não é um momento econômico muito bom para o Irã. Desde dezembro do ano pasado, o Irã passa pelos maiores protestos dentro de casa. A população está nas ruas reclamando de inflação, desemprego”, analisa. Além disso, o preço do petróleo, principal fonte de renda iraniana, vem caindo, e o país enfrenta dificuldades para comercializá-lo devido às sanções internacionais.
Possíveis termos do acordo
Segundo o especialista, dois pontos principais poderiam ser articulados entre Irã e Estados Unidos. O primeiro seria relacionado ao programa nuclear iraniano, com garantias de que o enriquecimento de urânio seria usado apenas para fins médicos e não para desenvolvimento de armas nucleares. Isso envolveria mecanismos de controle, abertura das centrífugas para observadores externos e salvaguardas internacionais.
O segundo ponto envolveria um possível distanciamento do Irã em relação à China. “Hoje em dia, parte importante do abastecimento de petróleo que a China recebe vem do Irã a preços muito descontados, porque o Irã não tem para quem vender”, explica Brancoli. A China também tem feito investimentos no Irã como parte da chamada Nova Rota da Seda.
Brancoli ressalta, no entanto, que seria difícil para o Irã atender a essas demandas, especialmente o afastamento da China, que tem sido um importante parceiro comercial em tempos de isolamento econômico. Além disso, o programa nuclear é visto pelo regime iraniano como uma salvaguarda contra possíveis invasões estrangeiras.
