Exclusivo: MP investiga Governo Bocalom por falsificação de contra-cheque e vantagens patrimoniais em empréstimos consignados

Promotora Laura Cristina Miranda

A investigação instaurada pelo Ministério Público do Estado do Acre para apurar a concessão irregular de empréstimos consignados a servidores comissionados da Prefeitura de Rio Branco lança luz sobre um problema que vai muito além de possíveis irregularidades pontuais. O que emerge dos autos do Procedimento Preparatório nº 06.2026.00000040-0 assinado pela promotora Laura Cristina Miranda deve revelar um cenário preocupante de fragilidade administrativa, falhas de controle e possível conivência institucional com práticas que colocam em risco o erário e a moralidade pública.

O crédito consignado, por sua natureza, exige controles rígidos e fiscalização permanente. Trata-se de operação financeira que se apoia diretamente na folha de pagamento do poder público e, portanto, no dinheiro do contribuinte. Quando esse mecanismo é utilizado para beneficiar servidores comissionados — cuja permanência no cargo é instável e juridicamente precária — sem a observância estrita das normas legais, o risco deixa de ser teórico e se transforma em ameaça concreta ao patrimônio público.

Os indícios já levantados pelo MP

Os indícios relatados na Portaria do Ministério Público são graves. Há suspeitas de fraudes documentais, como falsificação de comprovantes de renda e manipulação de informações funcionais, supostamente utilizadas para viabilizar operações de crédito que, em tese, não deveriam sequer ter sido autorizadas. Mais alarmante ainda é a possível anuência, ativa ou passiva, da Secretaria Municipal de Gestão Administrativa, órgão responsável justamente por zelar pela regularidade da folha de pagamento e das consignações. Se confirmadas, tais condutas revelam não apenas falhas técnicas, mas um colapso do dever de vigilância administrativa.

Causa estranheza que práticas dessa natureza tenham ocorrido mesmo diante da existência de um decreto municipal específico — o Decreto nº 1.598/2019 — que disciplina de forma clara as consignações em folha. Normas havia. O que aparentemente faltou foi o cumprimento efetivo delas. Isso levanta uma questão inevitável: os controles internos falharam por incompetência, por negligência ou por conveniência?

Outro ponto que merece crítica contundente é a dificuldade enfrentada pelo Ministério Público para obter informações completas e tempestivas na fase inicial da apuração. A necessidade de prorrogação da Notícia de Fato e, posteriormente, de instauração de procedimento formal investigatório indica um ambiente pouco transparente e resistente à fiscalização. Em uma administração comprometida com a legalidade, a atuação dos órgãos de controle deveria ser facilitada — não obstaculizada.

Sob a ótica jurídica, os fatos em apuração não são menores. A eventual concessão de vantagens patrimoniais indevidas e o possível prejuízo ao erário se enquadram nos tipos clássicos de atos de improbidade administrativa previstos na Lei nº 8.429/1992. Ainda que a legislação atual exija a comprovação de dolo, isso não reduz a gravidade do quadro, mas reforça a necessidade de identificar quem autorizou, quem validou e quem se beneficiou dessas operações.

Mais do que um problema financeiro, o caso revela um padrão perigoso de banalização da coisa pública. Quando sistemas administrativos são manipulados ou negligenciados para atender interesses particulares, o dano institucional é profundo. A confiança do cidadão na gestão pública se esvai, e a ideia de que regras podem ser contornadas dentro do próprio aparelho estatal se fortalece.

A atuação do Ministério Público, nesse contexto, cumpre papel essencial de freio institucional. No entanto, a sociedade espera mais do que a simples apuração formal dos fatos. Espera respostas claras, responsabilizações efetivas e, sobretudo, mudanças estruturais que impeçam a repetição desse tipo de prática. Sem isso, o episódio dos empréstimos consignados na Prefeitura de Rio Branco corre o risco de se tornar apenas mais um retrato da impunidade administrativa travestida de burocracia.

O caso está em investigação. Mas os sinais de alerta já estão dados. E eles apontam para um problema que não pode — nem deve — ser tratado como mera irregularidade administrativa.

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