O SERINGAL

O “Duto de Combustível” da RBTRANS: documento prova que gestão Bocalom virou “frentista de luxo” de empresa Ricco

Benício (de máscara), ao lado de Bocalom, logo após as eleições, na assinatura do contrato com os proprietários da Ricco Transporte

Documentos obtidos com exclusividade pela nossa reportagem coloca o prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom (PL), no centro de um escândalo que mistura indícios de improbidade administrativa, favorecimento ilícito e o completo esfacelamento do dever de fiscalizar. As provas indicam que o “casamento” entre a prefeitura e a empresa Ricco Transportes — detentora da concessão do transporte coletivo — vai muito além do contrato: o contribuinte riobranquense está, literalmente, pagando o diesel para a empresa lucrar.

O “Batom na Cueca”: O Ofício do Abastecimento Noturno

O documento datado de 2022 – segundo ano do primeiro mandato de Bocalom – mais contundente é um ofício assinado por Francisco José Benício Dias, então Diretor Administrativo e Financeiro da RBTRANS. No texto, que transborda confissão de irregularidade (por parte do Executivo), o diretor orienta o Auto Posto Correntão sobre uma logística de guerra, digna de operações clandestinas, para abastecer a frota da Ricco.

“Tem rolo, tem esquema, tem malandragem”, diz o empresário dono da revenda de óleo díesel que “encheu o tanque da Ricco (assista abaixo)

No ofício, a RBtrans diz:

“Vimos através deste informar que os abastecimentos ocorrerão no período noturno por questões de segurança, tendo em vista que não temos veículo apropriado para transportar os combustíveis para abastecer os ônibus do transporte coletivo e que os mesmos estão sendo transportados em tambores…”

A revelação é estarrecedora por dois motivos:

  1. O Desvio de Finalidade: A RBTRANS, órgão que deveria fiscalizar a Ricco, atua como sua “fiel escudeira” logística, assumindo custos e riscos que deveriam ser da empresa privada.

  2. O Risco Público: A prefeitura confessa o transporte irregular de inflamáveis em tambores no meio da noite, expondo a cidade ao risco de explosão para garantir que o lucro da concessionária não seja afetado por custos operacionais básicos.

O Ciclo da Proteção: Dispensas de Licitação e Aditivos no Escuro

A relação entre Bocalom e a Ricco Transportes parece blindada contra as leis de mercado. Desde 2020, a empresa sobrevive à base de dispensas de licitação sucessivas, um artifício que deveria ser emergencial, mas que na gestão atual virou regra.

Recentemente, o prefeito ignorou os gritos por transparência e aditivou pela terceira vez o contrato com a empresa. Ao fechar as portas para a “ampla concorrência”, Bocalom nega ao povo de Rio Branco a chance de um serviço melhor e mais barato, optando por manter uma empresa que é campeã de queixas por atrasos, ônibus sucateados e má prestação de serviço.

Do “Ostracismo” ao Acordo de Milhões

Nos bastidores políticos, a suspeita é de que o acordo entre o prefeito e a empresa tenha raízes profundas, anteriores até à sua eleição. O questionamento que fica no ar, e que o Ministério Público precisará responder, é: Qual é o verdadeiro compromisso de Bocalom com a Ricco?

Por que a RBTRANS — que não tem dinheiro para melhorar as paradas de ônibus ou sinalizar as vias — tem recursos para pagar combustível para uma empresa privada? Por que o órgão fiscalizador se transformou em frentista de luxo da concessionária?

A Resposta que não vem

Enquanto o cidadão espera horas por um ônibus que muitas vezes quebra no meio do trajeto, o combustível pago com o imposto do trabalhador escorre livremente para os tanques da Ricco, sob a bênção do gabinete municipal.

As provas apresentadas nesta reportagem não são apenas indícios; são a digital de uma gestão que confunde o patrimônio público com o balcão de negócios de aliados preferenciais. O princípio da moralidade administrativa, ao que tudo indica, ficou em algum posto de gasolina no caminho.


Nota da Redação: Entramos em contato com a RBTRANS e com o gabinete do Prefeito Tião Bocalom para esclarecer o teor do ofício e o pagamento de combustíveis para a frota da Ricco, mas até o fechamento desta edição, não houve resposta. O espaço segue aberto.

Benício Dias, ex-diretor, que assina o ofício e já foi desligado da RBtrans, concedeu entrevista ao Oseringal, afirma que o MP deve quebrar sigilos em torno de uma questão premente: por quais motivos o prefeito defende com tanta garra uma empresa privada? As considerações do advogado serão publicadas numa reportagem à parte, ainda nesta segunda-feira.  

Sair da versão mobile