EDITORIAL | O Escárnio de Feijó: Quando o Desespero Vira Mercadoria Eleitoral
Em Feijó, o que se viu nos nas cercanias da BR-364, nos últimos dias, não foi um movimento legítimo por dignidade, mas um espetáculo dantesco de oportunismo político. É preciso dar nome aos bois: a dor de quem espera por um médico foi sequestrada por quem só está interessado em votos, transformando a carência da população em munição para um radicalismo criminoso.
A Anatomia do Caos
O protesto, que nasceu sob a bandeira da reivindicação social, rapidamente descarrilou para o terreno da criminalidade. Áudios de WhatsApp — o novo tribunal do populismo barato — não falavam em soluções, mas em barbárie. Ameaças de invasão a prédios públicos e o absurdo anúncio de um suposto rapto do diretor do hospital local cruzaram a linha do aceitável.
A atuação firme da Polícia Civil, sob a coordenação do delegado Dione Lucas, com o apoio da PM e da PRF, não foi apenas uma ação de segurança; foi um freio de arrumação necessário contra o autoritarismo de quem acredita que, para cobrar direitos, é preciso pisotear os deveres e a lei.
Os investigadores conseguiram identificar o autor dos áudios, adotando as medidas legais cabíveis para responsabilização. Paralelamente, houve articulação entre diferentes órgãos de segurança e autoridades locais, o que contribuiu para a suspensão das manifestações e evitou que a situação evoluísse para confrontos ou maiores danos à população.
“Desde o momento em que tomamos conhecimento dos áudios com ameaças a servidores da saúde e a prédios públicos, instauramos imediatamente o inquérito policial e iniciamos as diligências para identificar o responsável”, disse o delegado.
A identidade do criminoso não foi revelada.
O Povo: Escudo e Massa de Manobra
O aspecto mais cruel dessa engrenagem é o papel reservado ao cidadão comum. Enquanto “líderes” articulam bloqueios e inflamam os ânimos para gerar likes e capital político, é o pai de família, a dona de casa e o doente que ficam no sol quente da rodovia, servindo de bucha de canhão.
O povo de Feijó foi usado como massa de manobra. Foi empurrado para a linha de frente de um confronto orquestrado por quem, no fundo, não quer que a saúde funcione — pois, se funcionar, acaba-se o discurso de ódio que os alimenta.
O Custo da Irresponsabilidade
Politizar uma crise sanitária é jogar com a vida alheia. Quando servidores da saúde — que já operam no limite do estresse — tornam-se alvos de ameaças, o sistema inteiro estremece. Quem ganha com o medo dos profissionais que cuidam da nossa gente? Certamente não o paciente.
O saldo desse palanque na BR-364 é desolador:
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Atraso no Diálogo: A gritaria impede a negociação técnica e administrativa.
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Vandalismo Institucional: Criou-se um ambiente de insegurança que afasta novos profissionais da região.
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Desrespeito à Lei: Transformou-se o legítimo direito de manifestação em um ensaio de motim.
Basta de Slogans sobre Cadáveres
Saúde pública se faz com orçamento, gestão e seriedade, não com bloqueio de estrada e áudios de ameaça. O que aconteceu em Feijó serve de lição amarga: o oportunismo eleitoral é um vírus tão letal quanto qualquer doença.
A ordem foi restabelecida pelas forças de segurança, mas a mancha da manipulação permanece. É hora de a população de Feijó repudiar quem tenta subir no palanque usando a maca do hospital como degrau. A saúde é um direito, não um troféu para demagogos.