Enquanto as peças publicitárias da prefeitura de Rio Branco pintam uma capital em plena transformação, os pneus dos moradores da periferia contam uma história bem diferente — e muito mais suja. Com a chegada do período chuvoso, o verniz da gestão de Sebastião Bocalom derrete, revelando que a “cidade modelo” da propaganda termina onde começa o barro dos bairros afastados do Centro.
A realidade é humilhante: ao fim de uma jornada exaustiva, trabalhadores são impedidos de chegar às suas próprias casas. O direito constitucional à mobilidade urbana foi substituído pelo “abandono involuntário”.
Do Carro para o Barro: A Via Crucis do Trabalhador
Em bairros como Panorama, Eldorado, São Francisco, Jorge Lavocard, Caladinho e Montanhês, a infraestrutura urbana retrocedeu ao status de ramal rural. A cena se repete a cada temporal: veículos são deixados pelo caminho, estacionados onde o asfalto ainda resiste, enquanto seus donos seguem o trajeto a pé, enfrentando um lamaçal que engole sapatos e dignidade.
Para a diarista Fátima Maria de Lourdes, a revolta é o sentimento que sobra no fim do dia.
“É revoltante a gente passar o dia todinho trabalhando e ainda ter que deixar a moto em qualquer lugar porque não dá de entrar na própria rua”, desabafa.
O perigo, no entanto, não termina na lama. O descaso da prefeitura abriu as portas para o crime. Já existem registros de furtos de motocicletas que, impedidas de acessar as garagens de seus donos, tornam-se alvos fáceis na escuridão das ruas principais.
A Incompetência que “Mete a Máquina”
O caso do bairro Vista Linda é o retrato mais fiel da má gestão. Ali, o problema não foi apenas a falta de ação, mas a ação desastrosa. Máquinas da prefeitura escavaram as vias no final do verão e, sem planejamento para concluir o serviço antes das chuvas, transformaram o que era ruim em um cenário intransitável.
O comerciante João Raulino de Paiva resume o sentimento da comunidade:
“O que já era ruim ficou pior depois que a prefeitura meteu as máquinas sabendo que não ia ter tempo de concluir.”
O Silêncio Conivente
Questionada sobre o caos que se instalou na parte alta da cidade, a Secretaria de Comunicação Social da prefeitura manteve o seu protocolo habitual: o silêncio. Parece haver uma estratégia deliberada de ignorar as indagações da imprensa livre, enquanto se negocia espaços em veículos que aceitam ignorar o barro em troca de verbas publicitárias.
O fato é que o “verão” de obras de Bocalom não resistiu à primeira invernada. Para quem vive no Vista Linda ou no Caladinho, a prefeitura não é uma aliada, mas o principal obstáculo entre o cidadão e o seu lar.
