
Não se trata de uma opinião isolada de um parlamentar qualquer, mas da posição do presidente da legenda que abriga e sustenta o projeto político de Alan Rick no Acre. Quando o comando nacional do partido afirma que o povo “não tem dinheiro para lazer” e insinua que tempo livre pode se transformar em problema, a declaração deixa de ser retórica e passa a ser orientação ideológica. A mensagem é clara: para os mais pobres, trabalhar mais seria a única forma aceitável de existir socialmente.
O argumento técnico apresentado por Marcos Pereira sustenta que a redução da jornada comprometeria a competitividade das empresas brasileiras. No entanto, a construção narrativa adotada vai além da economia e mergulha numa lógica moralizante, ao sugerir que o trabalhador de baixa renda não saberia administrar o próprio tempo fora do ambiente laboral. Ao questionar qual seria o lazer de um pobre “numa comunidade” ou “no sertão”, o presidente do Republicanos revela mais sobre a concepção social do partido do que sobre os impactos reais da proposta.
Diante disso, cresce a pressão para que Alan Rick se manifeste de forma objetiva. Como senador da República e possível candidato ao governo do Acre, sua posição não pode se esconder atrás do silêncio estratégico. Concorda ele com a tese de que reduzir a jornada expõe pobres ao risco moral? Endossa a ideia de que descanso é sinônimo de vulnerabilidade social? Ou diverge publicamente do presidente da própria legenda?
Em ano pré-eleitoral, a discussão sobre jornada de trabalho ultrapassa o campo econômico e se torna símbolo de projeto de sociedade. A fala do presidente do Republicanos estabelece um marco ideológico claro. Resta saber se Alan Rick o acompanha ou se pretende convencer o eleitor acreano de que pensa diferente do dirigente máximo do seu próprio partido. Em política, omissão também comunica posição, e o eleitor atento sabe interpretar silêncios.