A Rua Principal do bairro Calafate amanheceu diferente nesta sexta-feira. Onde antes reinava a imprudência e a falta de ordem, agora vemos as cores vivas da sinalização vertical e horizontal, seguindo rigorosamente o Código de Trânsito Brasileiro. Para quem passa, o cenário é de organização; para a comunidade, porém, o sentimento é um misto amargo de alívio e revolta.
É impossível olhar para as novas faixas de pedestres e placas de sinalização sem recordar o motivo de estarem ali. Elas não surgiram de um planejamento preventivo ou de uma visão estratégica de mobilidade urbana. Surgiram como uma resposta tardia ao atropelamento fatal do Pastor Leonildo Oliveira, de 65 anos, ocorrido na semana passada.
A Política do “Depois que Acontece”
O caso do Calafate é o retrato fiel de uma gestão pública que opera no modo reativo.
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A omissão: Durante anos, o perigo era conhecido pelos moradores. Motoqueiros em alta velocidade e embriagados eram riscos constantes.
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A tragédia: Foi necessário que um líder religioso, um cidadão em sua plenitude, perdesse a vida para que o poder público “enxergasse” a rua.
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A ação: A agilidade com que o DETRAN e os órgãos municipais sinalizaram a via após o óbito prova que os recursos e a capacidade técnica existiam. O que faltava era a vontade política ou a prioridade humana.
Sinalização não é Troféu, é Obrigação
Embora a população agradeça pelas melhorias — afinal, elas podem evitar que outras famílias chorem seus mortos — não se pode aplaudir o óbvio como se fosse um favor. A segurança viária deve ser preventiva. Pintar o asfalto após o sepultamento de uma vítima é, na melhor das hipóteses, um pedido de desculpas silencioso e insuficiente; na pior, é uma tentativa de conter danos à imagem política.
O Código de Trânsito Brasileiro não serve apenas para multar ou organizar o fluxo; ele existe para preservar a vida. Quando o Estado só se faz presente após o “fato consumado”, ele admite sua falha na missão primordial de proteger o cidadão.
Conclusão
A morte do Pastor Leonildo não pode ser apenas uma estatística que gerou uma lata de tinta. Fica o alerta às autoridades: o mapa da cidade está repleto de outros “pontos cegos” esperando pela próxima tragédia. É preciso agir antes que o luto se torne o único motor da administração pública. A vida não espera o tempo da burocracia.
