Na política acriana, a lealdade costuma durar apenas o tempo necessário para que o “aliado” alcance o próximo degrau. O que assistimos hoje, com as figuras de Tião Bocalom e Gerlen Diniz, é um espetáculo de ingratidão que desafia a lógica dos fatos e a cronologia da história recente. Se a gratidão é a memória do coração, o coração político de ambos parece sofrer de uma amnésia conveniente.
O Caso Bocalom: Do Ostracismo ao Trono
Não faz muito tempo, Tião Bocalom era uma figura folclórica, um “eterno candidato” que vagava pelo deserto do ostracismo político, colecionando derrotas e o descrédito até de seus pares. O “Velho” estava datado. Quem lhe estendeu a mão, abriu as portas da estrutura e deu o verniz de viabilidade que ele precisava para voltar ao jogo? Gladson Cameli.
Sem o suporte, o carisma e, principalmente, a máquina política de Cameli, Bocalom ainda estaria pregando para as paredes ou em algum canto isolado da capital. Hoje, sentado na cadeira de prefeito e agindo como se fosse um monarca independente, Bocalom parece ter esquecido que o combustível que o tirou da inércia não saiu de seu próprio tanque, mas sim da generosidade estratégica do Palácio Rio Branco.
Gerlen Diniz: A Ingratidão como Estratégia em Sena
O roteiro se repete em Sena Madureira. Gerlen Diniz, o “xerife” que gosta de posar de independente, construiu sua trajetória recente sob a sombra protetora do governo. Enquanto deputado, usou e abusou da proximidade com o Executivo para pavimentar seu caminho rumo à prefeitura.
Gerlen não chegou ao comando de Sena Madureira por um milagre espontâneo ou apenas por seus próprios méritos. Ele subiu os degraus usando a escada fornecida por Cameli. No entanto, mal a apuração das urnas terminou, o tom mudou. A parceria virou distância, e o apoio de ontem tornou-se um incômodo para o ego de quem, agora com a caneta na mão, prefere ignorar quem lhe deu a tinta.
O Erro de Gladson e o Preço da Benevolência
A crítica aqui não recai apenas sobre os ingratos, mas sobre a própria natureza de Gladson Cameli, que insiste em ser o “benfeitor dos seus próprios algozes”. Cameli tem a mania política de ressuscitar defuntos e alimentar quem, na primeira oportunidade, morderá sua mão.
Bocalom e Gerlen são exemplos vivos de que, no Acre, o poder não aceita vácuo, mas aceita — e muito bem — a falta de memória. Ambos saíram do nada político para o tudo administrativo graças a um único sobrenome: Cameli. Se hoje eles se sentem gigantes, é porque estão sobre os ombros de um gigante que eles agora fingem não conhecer.
“A política é a arte de engolir sapos, mas carregar ingratos nas costas parece ter se tornado a especialidade do atual governo.”
