As recentes denúncias envolvendo a eleição para a Reitoria da Universidade Federal do Acre (Ufac) reacendem um debate delicado e necessário sobre os limites éticos da atuação política dentro das instituições públicas de ensino. As suspeitas levantadas pelo professor Marco Amaro, integrante de uma chapa opositora, apontam para um possível uso indevido da máquina pública — tanto do Estado quanto da própria universidade — em benefício da chapa encabeçada pelo professor Carlos Paula de Moraes, apoiada pela atual reitora, Guida Aquino.
O episódio mais recente, ocorrido nesta terça-feira de Carnaval, intensificou as preocupações após uma reportagem denúncia de oseringal (reveja abaixo).
Um vídeo registrado por internautas que passavam pelo campus mostra o professor Cleverson Aguero de Carvalho, lotado na Universidade Federal de Rondônia (Unir).
Eles estavam nos preparativos para a produção de material de campanha. A FEM é atualmente gerida pelo professor Minoru Kinpara, que publicamente apoia a chapa considerada “oficial”.
Os fatos, isoladamente, poderiam ser interpretados como manifestações legítimas de apoio político. Contudo, o contexto institucional impõe questionamentos mais profundos. Quando servidores públicos — especialmente aqueles ocupando cargos comissionados ou funções estratégicas — participam ativamente de atividades de campanha em ambiente universitário, a linha entre o exercício da cidadania e o uso indevido da estrutura pública torna-se tênue.
“Isso tudo é muito estranho. Buscamos um pleito transparente, sem vícios, em que as melhores propostas ajudem o eleitor a formar sua melhor opinião sobre os candidatos. Esperamos providências. A Comissão Eleitoral não pode cruzar os braços”, disse Marcos Amaro.
No caso do professor Cleverson, soma-se ainda a circunstância de ele estar vinculado a outra instituição federal, a Unir, mas encontrar-se no Acre, supostamente atuando em favor da candidatura do professor Carlos. Acrescenta-se a isso o fato de sua esposa ser servidora lotada no gabinete da Reitoria da Ufac, o que, embora não configure irregularidade por si só, amplia a percepção de proximidade estrutural com a gestão atual.
O cerne da questão não reside apenas na legalidade formal das ações, mas na ética administrativa e na preservação da isonomia do processo eleitoral. Eleições universitárias devem ocorrer em ambiente de equidade, sem que a estrutura institucional — física, humana ou simbólica — seja percebida como instrumento de favorecimento a qualquer candidatura. A simples impressão de desequilíbrio já compromete a credibilidade do pleito.
A gestão pública exige não apenas probidade, mas também prudência. Em contextos eleitorais, especialmente dentro de universidades federais, onde o debate democrático é um valor estruturante, qualquer indício de confusão entre interesse institucional e interesse eleitoral deve ser tratado com transparência e rigor.
Caso as suspeitas se confirmem, estaríamos diante de um problema que ultrapassa a disputa interna e toca no princípio republicano da impessoalidade. Caso contrário, cabe aos envolvidos esclarecer publicamente os fatos, dissipando dúvidas e fortalecendo a confiança na lisura do processo.
Independentemente do desfecho, o episódio reforça a importância de mecanismos claros de fiscalização e de uma cultura institucional que separe, de forma inequívoca, gestão pública e campanha eleitoral. A universidade deve ser espaço de debate, mas jamais de instrumentalização.