Em um cenário político em que a lealdade costuma ser moeda de troca e não virtude, o prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, tem dado sinais de que trata relações políticas e pessoais mais como conveniências do que como compromissos duradouros. O episódio mais recente — a exoneração abrupta de Clendes Vilas Boas da direção da RBTrans, sem qualquer aviso prévio e em meio a tensões administrativas — escancara um padrão preocupante de gestão baseado na indiferença e na centralização do poder.
Clendes não era um técnico qualquer. Nomeado em janeiro de 2025 para chefiar a autarquia municipal de transportes, ele acabou se tornando peça-chave em um embate delicado sobre a renovação de um contrato emergencial com a empresa responsável pelo transporte coletivo da capital, a Ricco Transportes. Sua postura resistente diante do alinhamento automático à vontade do executivo — ao pautar sua decisão em critérios técnicos — parece ter sido vista, não como fidelidade administrativa, mas como obstáculo político. O resultado? Exoneração publicada sem aviso, na edição extra do Diário Oficial, que surpreendeu aliados e técnicos da própria gestão.
O que a decisão revela é mais do que um ajuste burocrático: é a face de um estilo de governar que sacrifica até quem já caminhou junto pelos mesmos interesses políticos. A forma com que Bocalom tratou Clendes — primeiro defendendo sua permanência publicamente mesmo diante de graves denúncias de assédio moral e pressões da Câmara, depois retirando-lhe o cargo justamente quando seu posicionamento se chocou com decisões políticas — expõe um padrão volátil de fidelidade.
Não custa lembrar que Clendes foi mantido no cargo por Bocalom por meses, apesar de pedidos formais de afastamento pela Câmara e acusações de assédio moral por parte de servidores. Na época, o prefeito chegou a afirmar que confiar era um princípio basilar, diria até um gesto de “presunção de inocência”. Agora, porém, quando o cargo se tornou menos conveniente, a mesma confiança parecia ter evaporado — sem transparência ou diálogo público que justificasse tal reversão com clareza.
Esse tipo de comportamento político — instável, pessoal e autoritário — não é apenas ingratidão: é sinal de governança centrada no próprio umbigo do gestor, não nas instituições ou na coletividade que supostamente deveria servir. Ao dispensar aliados sem debate, sem aviso prévio e sem compartilhar os critérios que orientaram a decisão, Bocalom reforça um estilo de administração verticalizado, que privilegia a surpresa e o arbítrio em vez de processos claros e pactos políticos minimamente estáveis.
Aliados que antes celebravam as vitórias conjuntas hoje contemplam, perplexos, a facilidade com que uma relação construída no calendário eleitoral se desfaz no calendário oficial do Diário. Esse gesto não apenas desabona a trajetória administrava de quem se foi — ele sinaliza para quem permanece que nenhum gesto de lealdade está imune à indiferença do poder.
Nesse jogo, Bocalom parece acreditar que governar é governar sozinho — e que as alianças são úteis apenas enquanto servem a propósitos imediatos. Se há uma lição neste episódio, é que a política sem reciprocidade pode até alcançar resultados num curto prazo, mas dificilmente constrói algo que perdure — nem para a gestão, nem para a cidade que dela depende.
