A quatro semanas de deixar o cargo para disputar o governo do Estado, o prefeito Tião Bocalom assiste — e se beneficia politicamente — de um dos episódios mais constrangedores de sua gestão à frente da Prefeitura de Rio Branco. Na prática, o que se viu na sessão desta quarta-feira (11) na Câmara Municipal de Rio Branco foi um retrato cristalino de como a política pode transformar um espaço de fiscalização em mera extensão do poder executivo.
A base governista no parlamento municipal decidiu bloquear uma série de requerimentos que buscavam abrir informações sobre contratos milionários e obras cercadas por suspeitas de irregularidades. O gesto foi interpretado por opositores e por parte da opinião pública como uma blindagem deliberada à gestão que se encerra.
Entre os temas barrados está o programa “Aedes do Bem”, iniciativa que consumiu cerca de R$ 4,5 milhões em recursos públicos e cuja eficácia vem sendo questionada. O autor dos pedidos de investigação, o vereador André Kamai, argumentou que até hoje a população não viu resultados concretos da tecnologia biológica aplicada ao combate da dengue na capital.
Mas a barreira erguida pela maioria governista foi além. Também foram rejeitados pedidos de fiscalização sobre a recuperação da Estrada do Quixadá, onde denúncias apontam que o asfalto já apresenta rachaduras profundas apenas 30 dias após a entrega da obra — um indício preocupante sobre a qualidade do serviço e o destino do dinheiro público.
Outro momento emblemático da sessão envolveu a tentativa de ouvir o empreiteiro Jarbas Soster sobre possíveis falhas no programa Asfalta Rio Branco, um pacote de pavimentação estimado em R$ 190 milhões, financiado majoritariamente por empréstimos. A convocação chegou a empatar na votação, mas foi derrubada após o presidente em exercício da Casa usar o voto de minerva para impedir o depoimento.
O resultado prático foi a manutenção do silêncio sobre contratos, obras e decisões administrativas justamente no momento em que a cidade mais precisa de transparência.
Para críticos da gestão, o episódio expõe um problema estrutural: a promiscuidade política entre Executivo e Legislativo municipal. A acusação recorrente é que grande parte dos parlamentares da base mantém cargos indicados dentro da estrutura da prefeitura, muitos deles ocupados por familiares ou aliados políticos. Esse arranjo teria transformado o que deveria ser um espaço de fiscalização em um verdadeiro balcão de interesses, onde apoio político é trocado por espaço na máquina pública.
Enquanto isso, temas sensíveis seguem sem resposta. No Polo Agroflorestal Benfica, por exemplo, moradores temem que o processo de regularização fundiária resulte apenas em novas cobranças de IPTU, sem que cheguem infraestrutura e serviços básicos.
Com as portas da investigação fechadas dentro do Legislativo municipal, o destino dessas denúncias agora depende de órgãos externos de controle. O vereador Eber Machado já levou questionamentos ao Tribunal de Contas do Estado do Acre e ao Ministério Público do Estado do Acre, solicitando apuração sobre possíveis irregularidades no programa de asfaltamento.
No entanto, o dano político já está feito. A poucas semanas de deixar a prefeitura, a imagem que se projeta é a de um governo que, em vez de abrir as contas para a sociedade, prefere baixar as cortinas enquanto ainda restam perguntas sem resposta.
E, no apagar das luzes da gestão, a maior vergonha talvez não seja apenas o que pode ter sido feito com o dinheiro público — mas o esforço coletivo para impedir que a população descubra a verdade.
