O jogador de futebol Damián Bobadilla, meia do São Paulo, firmou um acordo com o Ministério Público de São Paulo para não ser denunciado por injúria xenofóbica, referente à suspeita de ofender um atleta rival em uma partida da Copa Libertadores da América, em 2025.
Bobadilla foi indiciado pela Polícia Civil de São Paulo após o caso de desentendimento com Miguel Navarro, zagueiro do clube argentino Talleres, durante o jogo no Morumbis, em 27 de maio de 2025. Segundo a investigação, o atleta de 26 anos revelou que Bobadilla o teria chamado de “venezuelano morto de fome”.
A proposta foi apresentada à Justiça paulista pelo promotor Danilo Goto, do Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância, e o ANPP (Acordo de Não Persecução Penal) foi homologado no último dia 10 de março.
Com o acordo, o jogador do São Paulo se comprometeu com algumas condições, que já estão sendo cumpridas. Veja abaixo:
- Realização de curso online sobre xenofobia, com comprovação por vídeos explicativos;
- Visita educativa ao Museu da Imigração, também acompanhada de registro audiovisual;
- Publicação de quatro postagens em redes sociais com conteúdo de combate à xenofobia, previamente aprovadas pelo Ministério Público;
- Doação de 100 kits de livros voltados à temática migratória para políticas públicas municipais, com valor estimado em R$ 61.400,00
As obras doadas pelo atleta paraguaio serão direcionadas à Coordenação de Políticas para Imigrantes e Promoção do Trabalho Decente, ligada à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Bobadilla também já fez um dos quatro posts em combate à xenofobia, publicado em seu Instagram no último dia 14 de março.
O Acordo de Não Persecução Penal é um instrumento previsto no artigo 28-A do CPP (Código de Processo Penal) que permite que o Ministério Público firme um acordo com o investigado antes do oferecimento de denúncia.
O dispositivo é aplicável a crimes sem violência ou grave ameaça e com pena mínima inferior a quatro anos, desde que o investigado confesse a prática do delito e não seja reincidente. Em troca do cumprimento de condições ajustadas, o processo é evitado e, ao final, pode haver a extinção da punibilidade.
A CNN Brasil tenta contato com a defesa do jogador. O espaço segue aberto.
“Venezuelano morto de fome”
O caso de xenofobia envolvendo Bobadilla gerou repercussão e investigações tanto na esfera judicial brasileira quanto na Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol).
Durante o jogo, Miguel Navarro, jogador venezuelano do Talleres, de 26 anos, foi visto chorando e discutindo após o segundo gol do São Paulo. Ao final da partida, Navarro revelou que Bobadilla o teria chamado de “venezuelano morto de fome“.
Navarro expressou sua frustração, afirmando que quis sair do jogo, mas não havia mais substituições, e que “a justiça deve ser feita, isso não pode continuar acontecendo”. O técnico do Talleres, Mariano Levisman, também confirmou que o jogador foi vítima de xenofobia, e o capitão Augusto Schott chegou a falar em racismo.
O jogador venezuelano ainda se manifestou nas redes sociais, afirmando que iria “às últimas consequências diante do ato de xenofobia”.
Após abrir uma investigação, a Conmebol multou Bobadilla em US$ 15 mil dólares, pouco mais de R$ 83 mil. O valor foi descontado diretamente do que o São Paulo recebe pelos direitos de imagem e patrocinadores da competição. Ele foi enquadrado no artigo 11 da entidade, que fala sobre princípios de conduta por “declarações difamatórias”, violação de prática desportiva e descrédito ao esporte e à Conmebol.
Para a Polícia Civil, Bobadilla não negou o crime, mas amenizou a declaração ao afirmar ter chamado o adversário de “venezuelano de merd*”. O atleta do Tricolor paulista ligou para o jogador adversário, pediu desculpas e publicou um vídeo com sua versão do ocorrido.