O SERINGAL

De Genebra a Roma, a Ufac como “agência de viagens” e o ranking do absurdo que choca o AC; reitora lidera ranking com R$ 768 mil e 590 dias fora

Enquanto o ensino público superior no Brasil atravessa um período de asfixia financeira, com reitores e diretores de centros acadêmicos equilibrando as contas para manter as luzes acesas, os dados extraídos do Portal da Transparência sobre a Universidade Federal do Acre (UFAC) revelam uma realidade paralela. O que se vê entre 2018 e 2025 não é apenas a gestão da educação, mas a consolidação de uma casta de viajantes cujas despesas em diárias e passagens desafiam o bom senso e a ética pública.

Os números são acintosos: R$ 13,26 milhões gastos em deslocamentos. Desse montante, uma parcela desproporcional — cerca de 13,37% — foi consumida por apenas cinco pessoas da alta cúpula (confira logo abaixo a relação nominal e os gastos individuais)

.No topo da pirâmide, a reitora Margarida de Aquino Cunha acumulou 185 viagens, resultando em quase dois anos (590 dias) de ausência do campus e um custo individual superior a R$ 768 mil. Ou seja, dos quase oito ano de gestão, Guida Aquino permaneceu 1 ano e 10 meses ausente, em viagens dentro e fora do país que consumiram perto de R$ 800 mil.

A disparidade orçamentária dentro da própria instituição beira o escárnio. Como explicar que uma única viagem de duas gestoras a Roma, custando mais de R$ 47 mil, equivalha a quase três vezes o orçamento anual de passagens de um centro acadêmico inteiro, que atende 120 servidores? Enquanto coordenadores de curso lutam por migalhas para enviar pesquisadores a congressos nacionais, a “diplomacia acadêmica” da reitoria desbrava Genebra, Cuzco e Cidade do México com cifras que ultrapassam a marca dos R$ 50 mil a R$ 70 mil por missão.

Indicadores de Risco e Silêncio Institucional

Para órgãos de controle como a CGU e o TCU, a concentração de gastos em poucos agentes e a recorrência elevada de viagens são “bandeiras vermelhas” clássicas para má gestão ou favorecimento. Não se trata apenas do valor em si, mas do custo-benefício. Qual foi o retorno concreto para a graduação ou para a pesquisa no Acre após essas dezenas de incursões internacionais? O silêncio da UFAC diante dos questionamentos apenas reforça a percepção de que a transparência é tratada como mera formalidade burocrática, e não como um dever ético.

Além disso, a identificação de centenas de registros com valores fora da média e a ausência de lançamento de passagens em mais da metade dos casos (53,7%) levantam suspeitas sobre a fiscalização interna. Estariam os deslocamentos sendo realizados sem o devido rigor contábil?

A relação do escárnio

  1. Margarida de Aquino Cunha (Reitora) — R$ 768.473,54 (185 viagens e 590 dias fora)
  2. Ednaceli Abreu Damasceno (Pró-Reitora de Graduação) — R$ 320.349,20 (78 viagens e 275 dias fora)
  3. Ivone de Oliveira Moraes de Souza (Chefe de Gabinete) — R$ 283.431,06 (57 viagens e 264 dias fora)
  4. Margarida Lima Carvalho (Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa) — R$ 219.916,07 (55 viagens e 168 dias fora)
  5. Gilberto Mendes da Silveira Lobo (Assessor de Comunicação até 2025) — R$ 181.832,72 (65 viagens e 232 dias fora)

Os dados apontam não apenas valores elevados, mas também frequência significativa de deslocamentos, especialmente no caso da reitora, com 185 viagens ao longo do período.

Para efeito de comparação, um diretor de centro acadêmico da universidade, que pediu para não ser identificado, afirmou que, em 2024, sua unidade recebeu cerca de R$ 16 mil para atender aproximadamente 120 servidores em despesas com passagens e diárias.

No mesmo ano, segundo a base analisada, uma única viagem realizada conjuntamente pela reitora e pela pró-reitora de graduação para Roma, na Itália, somou R$ 47.800,43, valor que, segundo o relato, equivale a quase três vezes o orçamento anual do centro mencionado.

O levantamento reúne 5.352 registros oficiais do Portal da Transparência do Governo Federal, incluindo despesas com diárias, passagens e outros custos associados.

Entre as viagens mais onerosas da base, destacam-se deslocamentos internacionais:

  1. Genebra (Suíça), 2023 — R$ 69.939,62 (11 dias)
    Participantes:
  1. Cuzco (Peru), 2022 — R$ 73.760,98 (entre 7 e 12 dias)
    Participantes:

Conclusão

Uma universidade federal deve ser o reduto do pensamento crítico e da responsabilidade com o bem comum. Quando a sua cúpula se torna a principal beneficiária de um sistema de privilégios de mobilidade, a instituição se afasta de sua missão social.

Os dados estão expostos. Cabe agora aos órgãos de controle e à própria comunidade acadêmica exigir que a “caixa-preta” das viagens na UFAC seja aberta. Em tempos de escassez, o luxo de poucos não pode ser custeado pela precariedade de muitos.

Nota da redação

A assessora de Comunicação Aleta Tereza Dreves não foi localizada até a última atualização deste artigo. O espaço segue disponível para os esclarecimentos devidos pela Ufac

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