Editorial: o “adeus” de Bocalom, o calote anunciado ao trabalhador, omissão e o rastro de destruição no transporte público

A poucos dias de deixar a cadeira de prefeito para se aventurar na disputa pelo Governo do Estado, Tião Bocalom (PL) entrega aos riobranquenses um cenário de terra arrasada no transporte coletivo. A recente decisão da Justiça do Trabalho, que determinou a indisponibilidade da frota da empresa Ricco Transportes, não é apenas um fato jurídico; é o atestado de falência de uma política pública baseada na conveniência e na omissão fiscalizadora da RBtrans.

A Conivência Transformada em Ofício

Enquanto a prefeitura ensaia um discurso de “nova licitação” para limpar a imagem às vésperas da saída de Bocalom, o Poder Judiciário revela a face cruel da realidade: uma empresa que opera sob o manto de sucessivas dispensas de licitação e aditivos suspeitos está sendo acusada de calote generalizado em seus trabalhadores. Atrasos salariais, falta de recolhimento de FGTS e INSS, e a supressão de intervalos básicos não são falhas pontuais; são o modus operandi de uma empresa que se sente protegida pelo Palácio Municipal.

Onde estava a RBtrans enquanto a Ricco paralisava unilateralmente 31 linhas de ônibus? Por que o órgão que deveria fiscalizar o serviço agiu como um “escritório de apoio” da empresa, permitindo que o passivo trabalhista crescesse a ponto de a Justiça precisar bloquear a frota para evitar a dilapidação do patrimônio?

O Jogo de Cartas Marcadas

A cronologia dos fatos é escandalosa. O anúncio tardio de uma licitação, feito no apagar das luzes do mandato, soa menos como um compromisso com a legalidade e mais como uma tentativa de “blindagem” ou de deixar uma herança maldita para o sucessor. O juiz Felipe Taborda, ao proibir a venda ou transferência dos veículos, enviou um recado claro: há um risco concreto de que a empresa tente “sumir” com os bens antes de pagar o que deve.

A suspeita de um acordo espúrio ganha força quando observamos que a prefeitura, de forma voluntária, se recusou a resguardar valores para garantir o direito dos motoristas e cobradores, forçando o Sindicato a recorrer ao Judiciário para que o óbvio fosse feito.

A Herança de Bocalom

Tião Bocalom sai de cena para tentar um cargo maior, mas deixa para trás uma capital com o transporte em frangalhos e trabalhadores desesperançados. O prefeito que prometia “produzir” parece ter produzido apenas um modelo de gestão onde o lucro da empresa amiga é garantido pelo suor não pago do trabalhador e pelo imposto do cidadão que espera, em vão, por um ônibus que não vem.

A RBtrans, outrora um órgão técnico, transformou-se em um figurante de luxo em um teatro de sombras onde a Ricco Transportes é a protagonista e o povo de Rio Branco, o público que paga caro por um espetáculo de má qualidade. Se a licitação anunciada seguir o mesmo rastro de “parceria” que marcou os últimos seis anos, a capital do Acre continuará presa a um sistema que não transporta pessoas, mas sim interesses obscuros.