Em ano pré-eleitoral, a velha máxima da política brasileira volta a ganhar força: obra boa tem muitos pais. Mas, no Acre, poucos parecem levar essa lógica tão longe quanto o senador Alan Rick. A postura recorrente do parlamentar de reivindicar protagonismo em iniciativas que contam com múltiplos autores e instituições começa a gerar incômodo — e críticas públicas.
A repercussão mais recente veio da coluna “Bom Dia”, publicada nesta sexta-feira (6) pelo jornal A Tribuna, que apontou o comportamento do senador como um exemplo de apropriação política de resultados coletivos. O texto não poupou ironias ao descrever o hábito de Alan Rick de apresentar-se como responsável por projetos em que sua participação foi apenas parcial — ou, em alguns casos, secundária.
A comparação feita pela coluna é emblemática: seria como o marceneiro que colocou apenas um prego em uma cadeira e, ainda assim, reivindica a autoria completa da peça.
Infovia e a disputa pelos louros
Um dos episódios citados envolve a recente inauguração da Infovia de informática no Acre. O senador divulgou material oficial apresentando-se como responsável pela iniciativa após ter destinado cerca de R$ 1 milhão em emendas em legislatura passada.
O problema, segundo a crítica publicada em A Tribuna, é a desproporção entre o papel desempenhado e a narrativa construída. A Infovia é fruto de um projeto federal de grande escala, com investimento de centenas de milhões de reais e participação direta do governo federal e de diversas instituições. A contribuição parlamentar, embora legítima, não justifica — na avaliação dos críticos — a tentativa de capitalizar politicamente o projeto como se fosse obra exclusiva.
Relator não é autor
Outro caso citado envolve o projeto que restabeleceu o tratamento isonômico entre zonas francas da Amazônia, encerrando a interpretação restritiva do Superior Tribunal de Justiça. No material divulgado por Alan Rick, o projeto aparece praticamente como uma conquista pessoal.
Mas os fatos legislativos contam outra história. A proposta é de autoria do senador Randolfe Rodrigues, enquanto a emenda que ampliou os benefícios da Zona Franca do Alto Acre para outros municípios foi apresentada pelo senador Sérgio Petecão. Alan Rick atuou como relator no Senado — função relevante, mas diferente da autoria da proposta.
Para observadores da política acreana, transformar a relatoria em protagonismo absoluto é um movimento que distorce o processo legislativo e reduz o papel dos demais parlamentares envolvidos.
O caso de Sena Madureira
Talvez o episódio mais simbólico tenha ocorrido em Sena Madureira. Ao lado do prefeito Gerlen Diniz, o senador participou de uma tentativa de inauguração da Casa do Produtor — obra construída pelo governo do Estado e executada pelo Deracre.
Mais uma vez, a presença de emenda parlamentar foi apresentada como justificativa para reivindicar a “paternidade” da iniciativa.
Mas, como lembram críticos, destinar recursos para uma obra pública não significa ser o dono dela. Obras públicas são, por natureza, fruto de cooperação entre diferentes níveis de governo e instituições.
O risco político
A insistência em transformar participações pontuais em protagonismo total pode trazer dividendos momentâneos de visibilidade. Porém, no longo prazo, tende a produzir o efeito contrário: desgaste político e perda de credibilidade.
Quando a narrativa política começa a se distanciar demais da realidade administrativa, o público percebe. E, em tempos de redes sociais e fiscalização constante da opinião pública, o marketing pessoal encontra limites cada vez mais claros.
Se toda obra precisa de um pai, talvez seja mesmo hora de fazer o “teste de DNA” político — para que o mérito seja dividido entre quem realmente construiu cada resultado. Afinal, na política republicana, o crédito coletivo costuma ser mais honesto do que a tentativa de paternidade exclusiva.
