O balanço financeiro da Stellantis em 2025 revelou mais do que números negativos; ele desenhou o mapa de uma transformação radical no que o consumidor encontrará nas concessionárias nos próximos anos. O grupo registrou um prejuízo líquido de € 22,3 bilhões (R$ 135 bilhões), fruto de um “reset” estratégico de € 22,2 bilhões aplicado no segundo semestre. E o foco é: menos elétricos e mais V8.
Isso porque a empresa vive momento “sob nova direção”, com o executivo italiano Antonio Filosa, que assumiu em junho de 2025 no lugar do português Carlos Tavares. A filosofia agora é abandonar a insistência em produtos de baixa saída para focar no que o cliente realmente deseja comprar.
O ajuste bilionário vai impactar diretamente o planejamento de produtos e a cadeia de suprimentos de veículos elétricos (EVs). A empresa admite que o plano anterior não refletia a demanda real dos clientes ou as mudanças nas regulamentações. Por isso, a Stellantis pretende “limpar o pátio”, o que deve resultar no corte de versões e modelos que não entregam rentabilidade, priorizando plataformas multienergia que permitam ao motorista escolher entre combustão, híbrido ou elétrico.
“Nós executamos um ajuste decisivo para alinhar nossos negócios com os clientes. Em 2026, nossa onda de produtos deve ampliar a cobertura de mercado e buscar novas oportunidades de crescimento lucrativo. O foco deve ser a execução e a liberdade de escolha do consumidor”, declarou Antonio Filosa, CEO da empresa.

A ofensiva de produtos para 2026
O relatório de 2025 aponta alguns carros que prometem ser destaques para essa retomada. Na América do Norte, a estratégia deverá focar na retomada de ícones. A Jeep pretende reentrar com força no segmento de SUVs médios com o novo Cherokee, enquanto a Dodge deve apostar na nostalgia e performance com o Charger SIXPACK, mantendo o espírito dos muscle cars vivo, agora com motores de combustão interna de alta eficiência.
Outro movimento que deve entusiasmar o mercado é a manutenção de motores potentes em segmentos comerciais. A marca Ram pretende dar novo fôlego à Ram 1500 com o motor HEMI V8 e lançar novas versões Express no final de 2025. Na Europa, o foco deverá ser a consolidação tecnológica, com o lançamento das versões 100% elétricas do Citroën C5 Aircross e do novo Jeep Compass, além do reforço do Fiat 500 Hybrid.

Se no contexto global o cenário é de ajuste, o mercado latino-americano mantém-se como pilar de suporte da Stellantis. Tanto que a empresa é líder de vendas no Brasil e na região, e o antigo presidente, Emanuele Cappellano, foi nomeado para comandar a operação na Europa.
No documento, a Stellantis parece apostar muito na picape média Ram Dakota. O modelo deve ancorar a linha da marca na região, servindo como o suporte de volume e rentabilidade que a empresa precisa enquanto reorganiza suas operações nos Estados Unidos e na Europa. Ao meu ver, a aposta parece um tanto superestimada no Brasil, uma vez que produtos como Hilux, Ranger e S10 são as preferidas do consumidor picapeiro.
Apesar de não ser citado nominalmente, o novo hatch da Fiat derivado do Grande Panda pode ser outro destaque para alavancar vendas. Além disso, o documento ressalta a liberdade que as regiões têm para tocar projetos e novos produtos (diferente do que era na gestão Tavares). Nesse contexto, o programa Bio-Hybrid, com sistemas híbrido-flex, se encaixa entre os cases de sucesso da Stellantis em todo o mundo.
