A policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada morta na manhã de 18 de fevereiro, no apartamento em que vivia no bairro do Brás, na região central de São Paulo. Inicialmente, o caso era investigado como suicídio mas passou a ser visto como morte suspeita.
O disparo que matou a policial ocorreu às 7h28, de acordo com uma vizinha que acordou com o estampido e verificou o relógio do celular. No apartamento estava apenas o marido da vítima, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos.
O depoimento de Geraldo
Em depoimento à polícia, o oficial afirmou que acordou por volta das 7h e comunicou à esposa que desejava se separar. Segundo ele, Gisele teria se exaltado e o expulsado do quarto.
O tenente-coronel disse que foi tomar banho e que, excepcionalmente naquele dia, deixou a porta da suíte destrancada, onde sua pistola calibre .40 estava guardada sobre um armário.
Cerca de um minuto depois de entrar no chuveiro, afirmou ter ouvido um estrondo. Ao sair do banheiro, relatou ter encontrado a esposa caída na sala, vestindo apenas uma toalha, com ferimento na cabeça e segurando a arma.
Após o ocorrido, ele acionou o resgate e telefonou para um amigo pessoal, o desembargador do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo), Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan.
Contradições
Relatos de funcionários do condomínio e socorristas levantaram dúvidas sobre a versão apresentada. Testemunhas disseram que o tenente-coronel aguardava no corredor do prédio sem camisa e sem manchas de sangue nas mãos ou no corpo, o que indicaria que ele não tentou prestar socorro à esposa.
Socorristas também relataram estranhamento com a cena. Um dos bombeiros afirmou que conseguiu retirar a arma da mão da vítima com facilidade, sem o espasmo muscular normalmente observado em suicídios por arma de fogo.
Além disso, o cartucho da munição deflagrada não foi encontrado no local, mesmo após buscas feitas pelas equipes de resgate.
Banho no apartamento após o ocorrido
Outro ponto questionado pela investigação foi a decisão do oficial de retornar ao apartamento e tomar banho logo após a vítima ser levada ao hospital.
Segundo policiais presentes, ele ignorou orientações para preservar o local e seguiu para o imóvel acompanhado do desembargador Cogan, permanecendo cerca de 20 minutos no interior do apartamento antes de trocar de roupa.
Limpeza do imóvel
A inspetora do condomínio relatou à polícia que, no final da tarde do mesmo dia, três policiais militares foram ao apartamento e realizaram a limpeza do imóvel.
No dia seguinte, outros dois policiais voltaram ao local afirmando que buscariam munições pertencentes à vítima, permanecendo cerca de uma hora no apartamento sem localizar o material.
Relatos de relacionamento abusivo
Familiares e amigos de Gisele afirmaram à polícia que o casamento era marcado por controle e conflitos frequentes. Segundo depoimentos, o marido impunha restrições à policial, a proibindo de usar batom, salto alto e perfume, além de monitorar suas redes sociais.
A família também relatou que a filha da vítima, de 7 anos, havia pedido aos avós na véspera do crime para não voltar para casa, afirmando que não suportava mais as brigas entre os pais.
De acordo com os parentes, dias antes da morte, Gisele manifestou intenção de se separar. Ela teria desistido após receber um vídeo do marido em que ele apareceria chorando com uma arma apontada para a própria cabeça, ameaçando se matar caso fosse abandonado.
Exumação e nova perícia
Diante das inconsistências, a Justiça autorizou a exumação do corpo da policial em 6 de março para novos exames.
O laudo necroscópico complementar indicou que o disparo foi feito com a arma encostada na cabeça da vítima e identificou lesões no rosto e no pescoço compatíveis com pressão de dedos e marcas de unhas, o que sugere possível luta corporal antes do tiro.
Investigação segue sob sigilo
Com os novos elementos, o MPSP (Ministério Público do Estado de São Paulo) solicitou que o caso fosse encaminhado para a 5ª Vara do Tribunal do Júri da capital, responsável por julgar crimes dolosos contra a vida.
A Justiça também determinou sigilo nas investigações para preservar a análise de dados de celulares apreendidos e de roupas do oficial.
O tenente-coronel pediu afastamento de suas funções na Polícia Militar. Em nota, a defesa afirmou que ele não figura formalmente como suspeito e que tem colaborado com as autoridades, além de criticar a divulgação de informações consideradas descontextualizadas.
Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) afirma que o ocorrido é apurado como morte suspeita e que a tipificação pode ser revista a qualquer momento. Além disso, a Polícia Civil já colheu depoimentos e aguarda laudos complementares para subsidiar as investigações.
*Sob supervisão de AR.
