A ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã é vista como uma tentativa de conter uma ameaça estratégica mais ampla, que envolve segurança regional, energia e a própria estabilidade internacional. A avaliação é do coordenador-geral do DSI-USP (grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da Universidade de São Paulo), Alberto Pfeifer.
Segundo ele, a campanha militar tem como alvo o sistema político iraniano. “A guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã — contra o regime teocrático, a República Islâmica do Irã, o regime dos aiatolás — conta cada vez mais com o apoio dos países árabes, dos países do Golfo e dos países ocidentais, tentando eliminar uma ameaça existencial para Israel”, afirma Pfeifer.
Pfeifer argumenta que a disputa também envolve interesses energéticos globais e acrescenta que há ainda um cálculo geopolítico relacionado à competição com a China.
“É uma ameaça desestabilizadora para o mercado internacional de petróleo, hidrocarbonetos e gás natural. Busca dar continuidade a uma estratégia de contenção da dominância energética e dos hidrocarbonetos, precursores de toda a indústria plástica, petroquímica e de outros setores da China, portanto tentando asfixiar a autonomia industrial chinesa”, avalia.
Para Pfeifer, porém, há um fator mais profundo que aproxima diferentes países na oposição ao regime iraniano.
“O que une os interesses do Ocidente — Estados Unidos, Europa e Israel — e também os países árabes de linha mais sunita, em contraposição à linha xiita da República Islâmica do Irã, além de países orientais, como Índia e China, é a diferença na maneira de ver o mundo, uma teleologia, uma visão de como se dá a relação entre o poder terreno e as sociedades”, explica.
Na visão do pesquisador, o ponto central está na diferença de entendimento sobre a relação entre religião, Estado e política. Ele afirma que a maior parte dos países opera sob um modelo secular. “No caso desses países, há uma visão secular, com administração racional, estruturas burocráticas e distinção entre setores produtivos e políticos. No caso do Irã, há uma comunalidade entre religião e Estado”, diz.
O especialista avalia que o modelo iraniano representa um fator de risco para a estabilidade global. “Cria um problema de fundamentalismo radical, terrorismo potencial, dispersão pelo mundo da instabilidade por meio de organizações políticas criminosas que afetam a estabilidade do restante do mundo”, ressalta.
Por isso, afirma Pfeifer, a ameaça percebida ultrapassa os países diretamente envolvidos no conflito. “Esse é o principal potencial de risco, de perigo que o Irã representa, não só por esses países que estão na campanha militar diretamente, como Estados Unidos, Israel, países europeus e países árabes do Golfo, como também para a China, Índia e Rússia, como para toda a comunidade internacional”, pontua.
Na avaliação do analista, o confronto atual busca neutralizar os efeitos práticos desse modelo político, mas reconhece que ideias não podem ser eliminadas militarmente.
“Essa distinção entre o que é secular, o que é a vida dos homens, a vida terrena e a conexão direta com a religião, está presente na política e é central no entendimento do que é o regime iraniano. Como combater uma ideia? Não há como fazer. A ideia permanecerá. Mas a maneira de desestabilizar o restante do mundo é que está sendo neutralizada agora, para interesse de toda a comunidade internacional”, conclui.