A economia dos Estados Unidos apresentava sinais precários mesmo antes de o presidente Donald Trump entrar em uma guerra com o Irã, conforme demonstraram novos dados divulgados nesta sexta-feira (13).
No final do ano passado, o crescimento econômico foi fraco, segundo o Departamento de Comércio, impactado pela paralisação histórica do governo. Economistas esperam que a maior parte dessas perdas seja recuperada no trimestre atual, que vai de janeiro a março.
Mas os Estados Unidos ainda enfrentam um problema de inflação, de acordo com os dados de janeiro divulgados nesta sexta-feira (13) — um problema que pode se agravar se a guerra com o Irã continuar afetando os mercados globais de energia. Os consumidores já estão sentindo o aumento dos preços da gasolina.
A combinação da crescente pressão inflacionária e da persistente fragilidade do mercado de trabalho coloca os membros do Federal Reserve em uma situação delicada. Eles se reunirão em poucos dias para definir a próxima taxa de juros.
“O impacto total do conflito iraniano na economia e nos mercados financeiros dos EUA permanece altamente instável e incerto”, apontou Kathy Bostjancic, economista-chefe da Nationwide, em uma nota divulgada nesta sexta (13). “Quanto mais tempo o conflito e as interrupções persistirem, maior será o possível impacto negativo na confiança empresarial e do consumidor devido ao aumento da incerteza, o que pode prejudicar ainda mais a atividade econômica”, continuou.
Panorama geral
O Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA aumentou a uma taxa anualizada de 0,7% no período de outubro a dezembro, informou o Departamento de Comércio nesta sexta (13), em sua segunda estimativa. Isso representa uma queda acentuada em relação à taxa de 1,4% inicialmente divulgada e um ritmo mais lento do que os 4,4% do terceiro trimestre.
A estimativa mais recente revisou para baixo diversas categorias de produção, incluindo exportações, gastos do consumidor e gastos do governo. A maior revisão para baixo foi nas exportações, que caíram para -3,3%, abaixo dos -0,9% relatados na primeira estimativa.
A paralisação do governo continuou sendo o principal fator que impactou negativamente o PIB no quarto trimestre, reduzindo-o em 1,16 ponto percentual. Economistas esperam que a maior parte dessas perdas seja recuperada no trimestre atual, que vai de janeiro ao final de março.
“A revisão para baixo do PIB é um alerta importante em meio a essa crise energética, aumentando o risco de estagflação”, escreveu David Russell, chefe global de estratégia de mercado da TradeStation, em nota.
O quarto trimestre encerrou um ano turbulento para a economia dos EUA, com Donald Trump tentando reformular o comércio global e as empresas intensificando os investimentos em IA, ao mesmo tempo em que pausavam as contratações. A economia cresceu apenas 2,1% em 2025, o ritmo anual mais fraco desde 2020 e, antes disso, desde 2016.
Agora, porém, a economia dos EUA enfrenta os efeitos da guerra de Trump contra o Irã, que já fez os preços do petróleo dispararem e aumentou os preços dos combustíveis para os americanos, com a expectativa de mais inflação caso a guerra se amplie ou se prolongue.
A mais recente pesquisa de sentimento da Universidade de Michigan, divulgada nesta sexta-feira (13), mostrou que a guerra com o Irã já começou a afetar os consumidores. O sentimento caiu cerca de 2% neste mês, para 55,5, segundo uma leitura preliminar.
“As entrevistas realizadas antes da ação militar no Irã mostraram uma melhora no sentimento em relação ao mês passado, mas as leituras mais baixas observadas nos nove dias seguintes apagaram esses ganhos iniciais”, destacou Joanne Hsu, diretora da pesquisa, em um comunicado.
Mercado de trabalho instável
O choque do petróleo ocorre em um momento em que o mercado de trabalho dos EUA permanece em uma situação instável, com os empregadores eliminando 92 mil vagas em fevereiro, enquanto a taxa de desemprego subiu de 4,3% para 4,4%.
Mas novos dados divulgados nesta sexta-feira (13) pelo Departamento de Estatísticas do Trabalho sugerem que os empregadores ainda estão buscando contratar mais trabalhadores, com 400 mil novas vagas de emprego em janeiro, em comparação com dezembro.
No entanto, as demissões e dispensas aumentaram ligeiramente, em 183 mil, totalizando 2,1 milhões em janeiro. Esses dados são do último relatório JOLTS.
Um mercado de trabalho em declínio ajudou o Fed a reduzir as taxas de juros três vezes no ano passado, mas, a menos que as condições piorem, as autoridades do Fed podem hesitar em reduzir as taxas em breve devido à ameaça iminente de aumento de preços em decorrência da guerra no Oriente Médio.
PCE
Com as crescentes preocupações sobre a segurança no emprego, o apetite dos americanos por gastos não está aumentando.
Um relatório separado do Departamento de Comércio, também divulgado nesta sexta-feira (13), mostrou que os gastos do consumidor se mantiveram firmes em uma taxa de 0,4% em janeiro em relação a dezembro, de acordo com os dados de Despesas de Consumo Pessoal. Isso é importante para a economia em geral, já que os gastos representam cerca de dois terços da atividade econômica dos EUA.
Os dados revisados do PIB divulgados nesta sexta (13) também mostraram que os gastos do consumidor, ajustados pela inflação, no quarto trimestre foram de 2%, o que é inferior ao aumento de 2,4% relatado anteriormente.
Em relação à inflação, o indicador preferido do Fed, o índice de preços PCE, apresentou uma leve melhora em janeiro. Em termos anuais, cresceu 2,8%, contra 2,9% em dezembro. E em termos mensais, a inflação subiu 0,3%, comparada a 0,4% em dezembro.
“Isso só vai piorar à medida que o choque energético aumentar”, declarou Sonu Varghese, estrategista-chefe de macroeconomia do Carson Group. “Um problema já grande para o Federal Reserve vai se tornar ainda maior, e é provável que o Fed não reduza as taxas de juros em 2026 e possa até começar a falar sobre aumentos ainda este ano”, concluiu.