A Corregedoria da PM (Polícia Militar) se reuniu com os delegados que investigam a morte de Gisele Alves Santana, policial encontrada morta dentro de seu apartamento na capital paulista, para discutir o avanços das investigações.
No encontro, realizado nesta quarta-feira (12), os responsáveis decidiram que irão aguardar os resultados dos laudos periciais de exumação do corpo da mulher para dar continuidade às investigações.
Ainda ficou definido que somente após a análise dos resultados, será decidido se a prisão do tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, marido de Gisele, que estava no imóvel no momento do crime, será solicitada.
Relembre o caso
Gisele foi encontrada morta dentro do apartamento onde morava com o marido, no Brás. Ela apresentava um ferimento de arma de fogo na cabeça.
De acordo com a versão apresentada por Geraldo, o casal dormia em quartos separados. No dia anterior a morte, ele teria comunicado à esposa o desejo de se divorciar, o que, segundo o relato, a deixou exaltada.
O tenente-coronel afirma que no dia do ocorrido foi tomar banho e, cerca de um minuto depois, ouviu um disparo. Ao sair, disse ter encontrado a esposa caída na sala segurando a pistola dele, uma Glock calibre .40. Em seguida, afirmou ter acionado o socorro e ligado para um amigo.
Contradições e indícios na cena
Inicialmente registrada como suicídio, a ocorrência foi reclassificada primeiro como “morte suspeita” e posteriormente a Justiça de São Paulo solicitou que fosse investigada como feminicídio.
Uma das principais inconsistências diz respeito ao intervalo entre o disparo e o pedido de socorro. Uma vizinha relatou ter ouvido um estampido único às 7h28. No entanto, o chamado ao Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) foi feito apenas às 8h01.
Segundo os agentes que atenderam a ocorrência, a arma foi retirada da mão da vítima com facilidade, sem sinais de espasmo cadavérico, algo considerado incomum em casos de suicídio com arma de fogo. Além disso, nenhum cartucho de munição deflagrada foi encontrado no local.
Testemunhas ainda disseram que Geraldo não aparentava ter tentado prestar socorro à esposa e que seu corpo estava seco.
Entrada no apartamento e limpeza do local
Segundo relatos, o marido teria utilizado sua patente para retornar ao apartamento antes de seguir para a delegacia, alegando que precisava tomar banho.
Ele entrou no imóvel acompanhado de um amigo pessoal, o desembargador do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo), Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan.
Horas depois, por volta das 17h48, uma testemunha do condomínio afirmou ter visto três policiais militares femininas entrando no apartamento para realizar a limpeza do imóvel. No dia seguinte, outros dois policiais retornaram alegando que buscavam munições, mas nada foi encontrado.
Relatos de relacionamento abusivo
Familiares de Gisele afirmaram que a policial vivia sob controle psicológico do marido. A mãe da vítima relatou que o tenente-coronel proibia a filha de usar batom, salto alto e perfume, além de monitorar suas redes sociais.
Segundo a família, dias antes da morte Gisele teria manifestado o desejo de se separar. Ela teria recuado após o marido ameaçar tirar a própria vida e enviar um vídeo com uma arma apontada para a cabeça.
A situação dentro do apartamento também teria afetado a filha da policial, de 7 anos. Na véspera da morte da mãe, a criança teria pedido aos avós para não voltar ao local, chorando e relatando brigas frequentes entre o casal.
Exumação aponta sinais de violência
Diante das suspeitas, a Justiça autorizou a exumação do corpo da policial em 6 de março para novos exames periciais.
O laudo necroscópico complementar apontou que o disparo foi efetuado de forma “encostada” na cabeça. Os peritos também identificaram lesões no rosto e no pescoço da vítima compatíveis com pressão de dedos e marcas de unhas.
As marcas indicariam possível luta corporal e sinais de esganadura antes do disparo.
Defesa nega crime
Em entrevista ao Balanço Geral, da Record, Geraldo negou qualquer envolvimento na morte da esposa e afirmou estar sendo alvo de “linchamento virtual”.
Ele declarou que as marcas encontradas no pescoço de Gisele poderiam ter sido causadas pelo hábito de carregar a filha no colo e disse que não poderia ter arranhado a vítima porque “rói unhas”.
O tenente-coronel também afirmou que o vídeo em que aparece com uma arma apontada para a própria cabeça teria sido gerado por inteligência artificial. Sobre a limpeza do apartamento, alegou que teria cumprido uma orientação de superiores para poupar a família da vítima.
A defesa diz que ele tem colaborado com as autoridades e reforça que não figura como investigado, suspeito ou indiciado no procedimento formal em curso.
Investigação segue sob sigilo
A pedido do MP (Ministério Público), o caso foi redistribuído para a 5ª Vara do Tribunal do Júri da Capital, responsável por crimes dolosos contra a vida.
O inquérito tramita sob sigilo e aguarda a análise de dados extraídos de três celulares apreendidos durante a investigação. Além disso, o tenente-coronel pediu afastamento de suas funções na Polícia Militar.
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo
