Quando a tensão geopolítica global atinge seu ponto de ruptura e os Estados Unidos decidem intervir militarmente, a primeira arma utilizada pelo país para atingir o inimigo raramente carrega um piloto humano. Desde a Guerra do Golfo até os recentes embates no Oriente Médio, o míssil de cruzeiro Tomahawk consolidou-se como o “abridor de portas” oficial das Forças Armadas norte-americanas.
No entanto, em uma era dominada por debates sobre o uso de inteligência artificial bélica, uso de drones e mísseis hipersônicos, a predominância de um projeto desenhado durante a Guerra Fria levanta questionamentos sobre a evolução da letalidade tecnológica.
Para explicar o funcionamento prático dessa arma e entender como ela se mantém no topo da cadeia alimentar militar, a reportagem conversou com Pedro Teberga, especialista em negócios digitais e professor da FGV. Segundo o acadêmico, o erro mais comum na análise pública é confundir a natureza do equipamento: primeiro passo para compreender o Tomahawk é parar de compará-lo a uma bomba tradicional, que apenas cai por ação da gravidade com leves correções de trajetória.
“O Tomahawk ocupa uma categoria completamente diferente. É essencialmente um avião pequeno sem piloto”, define o profissional. E a distinção é brutal na prática, uma vez que a arma possui motor próprio, asas retráteis que se abrem após o disparo e uma capacidade impressionante de manobra.
Voando a altitudes extremamente baixas (entre 30 e 100 metros do solo), o equipamento consegue escapar da detecção da maioria dos radares inimigos e percorrer distâncias de até 2.500 quilômetros. “A distinção fundamental em relação a uma bomba é que ele voa, não cai. E, em relação a um foguete espacial, o objetivo é inverso: permanece dentro da atmosfera, rente ao solo, invisível para os sistemas de detecção”, explica o professor.
A estratégia militar por trás do disparo de Tomahawks
O lançamento massivo desses mísseis a partir de submarinos e cruzadores navais posicionados no oceano, a centenas de quilômetros de distância das fronteiras inimigas, atende a uma lógica dupla e implacável. Do ponto de vista puramente tático, a primeira onda de ataques de uma guerra moderna não visa eliminar fileiras de soldados, mas sim destruir a infraestrutura eletrônica do adversário.
Segundo o especialista da FGV, os alvos primários do Tomahawk são invariavelmente radares, centros logísticos de comunicação e baterias de defesa antiaérea.
“O objetivo inicial numa guerra moderna é cegar o inimigo. Só depois que esse ambiente está suprimido é que pilotos entram em cena com segurança”, detalha. Disparar essas armas elimina o risco político e militar de perder aviadores de elite nas primeiras e mais caóticas horas de um conflito.
Além da tática de combate, o Tomahawk carrega um forte componente geopolítico. O disparo de uma salva de mísseis representa uma declaração contundente de intenção bélica, mas com risco de baixas humanas imediato praticamente nulo para a nação atacante.
Teberga ressalta que essa característica preserva os canais de negociação até o limite do inevitável. “A mensagem enviada é que a ação militar já começou, mas sem que vidas de pilotos estejam em jogo ainda, o que preserva alguma janela diplomática de última hora”.
A tecnologia de navegação contra o bloqueio eletrônico
Em um cenário em que potências militares como Rússia, China e Irã rotineiramente utilizam o bloqueio de sinais de satélite, para desviar armamentos inimigos, a precisão cirúrgica de um míssil transcontinental poderia estar ameaçada. Contudo, o Tomahawk utiliza uma arquitetura de navegação tripla e redundante para garantir o impacto em uma janela específica a milhares de quilômetros de distância.
O GPS militar criptografado é apenas a primeira camada. O ponto crucial da navegação em território hostil é o sistema TERCOM (Terrain Contour Matching). O míssil decola carregando um mapa digital em alta resolução de todo o relevo que precisará sobrevoar.
Durante a rota, ele usa seus sensores de altimetria radar para ler o solo abaixo e comparar com o mapa da memória. “A analogia mais precisa é a de alguém guiando no escuro com os olhos vendados, mas com um sensor na sola do sapato que mede se está subindo uma colina ou passando por uma planície, comparando tudo isso com um mapa memorizado”, ilustra Teberga. Mesmo sob apagão eletrônico total, a localização é rigorosamente mantida.
Na fase final do mergulho rumo ao alvo, o sistema DSMAC (Digital Scene Matching Area Correlation) assume o controle. Uma câmera na ponta do míssil fotografa o cenário em aproximação e cruza as imagens com uma referência de inteligência pré-carregada. O Tomahawk não apenas chega ao local; ele reconhece visualmente a estrutura física do prédio antes da explosão, garantindo uma margem de erro extraordinariamente baixa, entre 3 e 10 metros.
Automação bélica: a evolução tecnológica do míssil
Embora tenha nascido nos anos 1980 sob a doutrina militar do “fire and forget” (atire e esqueça) — na qual a máquina seguia uma rota autônoma inalterável rumo à destruição —, o sistema passou por atualizações profundas para se adequar ao dinamismo da guerra contemporânea.
As versões mais recentes, como o Block IV, subverteram a lógica da automação burra ao incorporar capacidades de comunicação em tempo real e reprogramação bidirecional em pleno voo.
“Um operador pode alterar o alvo enquanto o míssil já está no ar, redirecioná-lo para uma prioridade diferente ou fazê-lo circular sobre uma área por horas, aguardando o momento certo para atacar”, aponta o especialista.
O sistema de hoje começa de forma autônoma, mas permite uma intervenção humana crítica durante o trajeto, enviando, inclusive, imagens de volta para a sala de comando nos navios instantes antes do impacto.
Diante de orçamentos trilionários e da corrida global por mísseis hipersônicos, a sobrevivência do Tomahawk se explica por um darwinismo corporativo e militar. O formato externo de tubo mantém-se o mesmo de 1983, mas seu interior tecnológico foi totalmente substituído ao longo de décadas, semelhante ao salto evolutivo de um smartphone da primeira geração para os modelos atuais.
Para Teberga, o sistema se sustenta por entregar a métrica mais valiosa do setor de defesa: o histórico comprovado de letalidade.
“Substituir o Tomahawk exigiria uma arma superior em todas as dimensões ao mesmo tempo: alcance, precisão, custo por unidade e confiabilidade”, argumenta. Em um mercado onde a falha de um software custa vidas e batalhas, a inovação não verificada perde espaço para a solidez técnica. “O Tomahawk permanece porque continua entregando o que promete, e esse critério, em guerra, supera qualquer apelo ao novo”, conclui o pesquisador.
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