A sessão desta terça-feira (10) na Câmara Municipal de Rio Branco escancarou mais um capítulo constrangedor da crise do transporte coletivo da capital. No centro das denúncias está novamente a empresa Ricco Transportes — concessionária que recebe volumosos repasses de recursos públicos da prefeitura, mas que agora é acusada de negligenciar direitos básicos de trabalhadores e operar sob suspeitas graves de irregularidades.
Enquanto o dinheiro público circula em ritmo acelerado, os direitos trabalhistas parecem ter ficado pelo caminho.
Segundo denúncia apresentada pelo vereador André Kamai (PT), a prefeitura passou a realizar repasses de subsídios à empresa em um intervalo incomum de apenas 72 horas — uma velocidade raramente vista na burocracia municipal. Em contraste, motoristas e funcionários demitidos afirmam que sequer tiveram seus direitos básicos respeitados após anos de trabalho.
O relato dos trabalhadores que compareceram ao parlamento foi contundente. O motorista José Felizardo afirmou que, após anos de serviço, descobriu possuir apenas cerca de R$ 200 depositados em sua conta de FGTS, um valor que levantou suspeitas de que a empresa não vinha realizando corretamente os depósitos obrigatórios.
Além disso, ele denunciou que ao menos 25 funcionários foram demitidos recentemente, supostamente como represália por uma paralisação de advertência realizada em 2025, quando trabalhadores protestaram contra atrasos salariais.
De acordo com os relatos apresentados aos vereadores, a forma como ocorreram as demissões também levanta questionamentos. Os trabalhadores afirmam que não realizaram exames demissionais, foram informados sobre a dispensa por terceiros e ainda tiveram os desligamentos registrados por justa causa, sem explicação formal.
Direitos básicos ignorados
Os relatos de ex-funcionários traçam um cenário ainda mais grave dentro da concessionária.
Entre as denúncias apresentadas na tribuna da Câmara estão:
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atraso no pagamento de verbas rescisórias de trabalhadores desligados desde dezembro de 2025;
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demora de até três anos para a entrega de fardamentos — descritos como de baixa qualidade;
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jornadas que impediam pausas para alimentação adequada;
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falta de tempo para necessidades fisiológicas básicas durante as viagens.
A denúncia expõe um abismo entre os recursos públicos destinados ao sistema de transporte e as condições de trabalho relatadas pelos profissionais responsáveis por manter os ônibus em circulação.
“Não se trata de caridade”, destacou Kamai. “A empresa recebe dinheiro público para prestar um serviço digno à população e respeitar seus trabalhadores.”
Pressões e perseguições dentro da RBTrans
As denúncias não ficaram restritas à empresa concessionária.
Durante a sessão, o vereador Zé Lopes (Republicanos) leu uma carta anônima atribuída a servidores da RBTrans — autarquia responsável pela fiscalização do transporte público — que descreve um ambiente de perseguição interna contra funcionários que tentariam fiscalizar a empresa.
Segundo o documento:
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servidores efetivos teriam sido exonerados ou rebaixados após tentar fiscalizar a concessionária;
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a prefeitura não possuiria as senhas do sistema de monitoramento por GPS, perdendo controle sobre a frota;
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ônibus estariam circulando com pneus carecas, documentação vencida e adaptações improvisadas, como aceleradores presos com arame.
Se confirmadas, as denúncias apontam não apenas falhas administrativas, mas um possível colapso no sistema de fiscalização do transporte coletivo.
“Refém de uma máfia”
O discurso mais duro da sessão veio do vereador Eber Machado (MDB), que afirmou que a gestão municipal teria se tornado refém de interesses instalados no setor de transporte.
O parlamentar exibiu em plenário um vídeo gravado por um morador do bairro Amapá, que relata a impossibilidade de circulação de ônibus, ambulâncias e viaturas policiais devido às condições precárias das ruas.
Segundo Machado, a concessionária utilizaria a precariedade da infraestrutura urbana como argumento para pressionar o poder público.
A denúncia mais grave foi a de que a empresa estaria chantageando a prefeitura para garantir renovações contratuais emergenciais e acelerar repasses financeiros — sob ameaça de retirar linhas ou expor bastidores da relação com a administração municipal.
Licitação bilionária sob desconfiança
No meio da crise, um novo elemento ampliou as suspeitas: o edital de licitação para o sistema de transporte público da capital.
Kamai afirmou que a prefeitura pagou R$ 490 mil a uma consultoria de engenharia para elaborar o documento, mas o trabalho não teria sido entregue conforme contratado. Segundo ele, técnicos da própria RBTrans precisaram refazer o projeto praticamente do zero.
O timing também chamou atenção: o edital surge apenas 24 dias antes da possível saída do prefeito Tião Bocalom para disputar as eleições estaduais de 2026.
Outro ponto levantado pelo vereador Aiache (PP) foi o fato de que a Ricco, mesmo sendo alvo recorrente de críticas e episódios envolvendo ônibus quebrados ou incendiados, continua apta a participar da nova licitação, cujo valor estimado ultrapassa R$ 1 bilhão.
A “caixa-preta” do transporte
O episódio final da sessão reforçou o clima de desconfiança.
O vereador Fábio Araújo (MDB) revelou que a empresa chegou a solicitar uma audiência pública para prestar esclarecimentos na Câmara, mas desistiu de comparecer na última hora, justamente após garantir a assinatura de uma renovação contratual.
Diante disso, parlamentares articulam agora uma resposta institucional mais dura.
Segundo Zé Lopes, faltam apenas duas assinaturas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar o que os vereadores passaram a chamar de “caixa-preta do transporte público de Rio Branco”.
Enquanto a investigação não avança, permanece a pergunta que ecoou no plenário:
como uma empresa que recebe repasses públicos cada vez mais rápidos consegue deixar trabalhadores sem direitos e a população com um serviço cada vez mais precário?