Análise: Europa não queria guerra com Irã, mas Trump impõe as consequências

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Análise: Europa não queria guerra com Irã, mas Trump impõe as consequências

“Quando terminarmos, assumam o seu governo”, disse Donald Trump ao povo iraniano no fim de fevereiro, ao anunciar a guerra. “Estará lá para vocês tomarem.”

Semanas depois, o presidente dos EUA transmite uma mensagem semelhante à Europa, que enfrenta um novo choque energético após o Irã praticamente fechar o Estreito de Ormuz, por onde normalmente passa um quinto do petróleo mundial.

“Ir até o estreito e simplesmente tomá-lo, protegê-lo, usá-lo para vocês mesmos”, disse Trump em um discurso esta semana. “Eles precisam tomar e valorizá-lo. Poderiam fazer isso com muita facilidade. Nós ajudaremos, mas eles devem liderar a proteção do petróleo do qual tanto dependem.”

Como de costume, o discurso de Trump foi marcado por inconsistências: ele tanto pediu que a Europa “reúna uma coragem atrasada” e use a força para garantir o Estreito de Ormuz, quanto afirmou que a via marítima “se abrirá naturalmente” após o fim da guerra. Mas a essência da mensagem foi clara: manter o estreito aberto não é responsabilidade dos Estados Unidos.

A tentativa de Trump de transferir essa responsabilidade sugere uma nova doutrina para a política americana no Oriente Médio, disse Richard Haass, presidente emérito do Council on Foreign Relations. Em uma inversão da antiga regra do “Pottery Barn” — “você quebrou, você compra” — Trump agora diria a seus aliados europeus: “Nós quebramos, mas agora é de vocês”, afirmou Haass.

Essa posição colocou a Europa em uma situação difícil: Trump não consultou seus aliados europeus e da Otan antes de iniciar a guerra, mas agora exige que eles assumam a responsabilidade de restaurar a situação anterior.

“Havia uma forma de envolver nossos aliados da Otan na discussão e debater como aumentar a pressão sobre o Irã. O presidente decidiu não fazer nada disso”, disse Ivo Daalder, ex-embaixador dos EUA na Organização do Tratado do Atlântico Norte, à CNN.

“Ele decidiu iniciar uma guerra sem falar com o Congresso, sem falar com o povo americano, sem falar com nossos aliados”, disse Daalder. “E agora, 31 ou 32 dias depois, se vê diante de uma escolha: ou escalar o conflito e se envolver em uma guerra interminável ou, francamente, recuar.”

Embora Trump ainda possa encontrar uma maneira de declarar vitória e se retirar do conflito, a Europa continuará arcando com duas consequências graves.

A primeira — e mais urgente — é o choque energético decorrente do fechamento efetivo do estreito. A Europa mal se recuperou de sua última crise energética, provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 — e pelo difícil processo de abandonar as importações de energia russa.

O think tank Bruegel, com sede em Bruxelas, alertou que, como a União Europeia depende fortemente de importações de gás, sua conta de energia pode disparar à medida que países competem por fontes alternativas, incluindo dos Estados Unidos.

Uma crise energética prolongada também pode levar países a questionar a decisão da UE de deixar de comprar combustíveis fósseis russos. Com exceção de Hungria e Eslováquia, os membros do bloco já não compram petróleo russo, mas ainda importam gás. A eliminação total está prevista para novembro de 2027 — mas o novo choque energético pode testar essa decisão.

O primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, rompeu com a linha dominante no mês passado ao defender a normalização das relações com a Rússia para recuperar acesso à energia barata. Embora tenha sido criticado, inclusive dentro de seu próprio governo, esse tipo de posição pode ganhar força se o estreito permanecer fechado.

A segunda consequência da postura de Trump — “nós quebramos, vocês assumem” — é mais profunda.

O presidente expressou irritação com o fato de que os aliados — que não foram consultados sobre a guerra com o Irã e a consideraram ilegal — não correram para ajudar os Estados Unidos. Em entrevistas publicadas esta semana, Trump sugeriu que considera retirar os EUA da Otan, criticando o que chamou de resposta fraca da aliança ao conflito.

“Eles não foram amigos quando precisamos deles”, disse Trump à Reuters. “Nunca pedimos muito… é uma via de mão única.”

Embora existam obstáculos legais e constitucionais para uma saída unilateral dos EUA da Otan, em muitos aspectos o dano já foi feito, disse Daalder.

“Alianças militares se baseiam, em sua essência, na confiança: a certeza de que, se eu for atacado, você virá me defender”, escreveu. “É difícil ver como qualquer país europeu agora poderá confiar plenamente nos Estados Unidos para sua defesa. Pode até esperar, mas não pode contar com isso.”

Embora cada novo ataque retórico à aliança cause impacto, analistas dizem que a Europa já havia entendido o recado há algum tempo. Se o primeiro ano do segundo mandato de Trump viu líderes europeus cederem às suas demandas, o início do segundo ano trouxe mais clareza — e disposição para resistir.

Grande parte da confiança que sobreviveu ao primeiro ano se dissipou após as ameaças de Trump, no começo do ano, de anexar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca — levantando a hipótese, antes impensável, de que um membro da Otan pudesse atacar outro.

Desde então, líderes europeus passaram a reagir com mais firmeza. Durante a semana o presidente da França, Emmanuel Macron, classificou como “irrealista” a ideia de Trump de “libertar à força” o Estreito de Ormuz.

Em uma crítica incomumente dura, Macron apontou as inconsistências do presidente: “Quando queremos ser sérios, não dizemos o oposto do que dissemos no dia anterior.”

Ao perceber que os EUA já não são um aliado confiável, a Europa agora trabalha para torná-los menos necessários. Assim como acelera o fortalecimento de sua indústria de defesa para reduzir a dependência de armas americanas, o continente também busca diminuir sua dependência de combustíveis fósseis — que Trump diz querer vender ao mundo — e acelerar a transição para energias renováveis.

A Europa ficou intrigada com a afirmação de Trump de que não estaria ao lado dos EUA se necessário. Agora que Trump deixa claro que os EUA não estarão ao lado de seus aliados, a Europa tenta garantir que isso seja um problema menor.

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