As variações nas tarifas de energia elétrica devem adicionar cerca de 0,4 ponto percentual à inflação oficial do país (IPCA) em 2026, segundo projeções da TR Soluções, empresa especializada em modelagem tarifária.
A estimativa considera os efeitos diretos dos reajustes das concessionárias nas contas de luz dos consumidores de energia elétrica nas principais regiões metropolitanas, com base na metodologia e nos pesos definidos pelo IBGE.
Na avaliação do diretor de regulação da empresa, Helder Sousa, a conta de luz deixou de ser um problema do setor elétrico e passou a ser uma questão também para o Banco Central, já que já que os reajustes passaram a ter impacto relevante sobre a inflação, influenciando diretamente a condução da política monetária.
“É importante ressaltar, contudo, que essa estimativa reflete um cenário-base que isola apenas os reposicionamentos tarifários”, alerta Sousa.
A situação pode ser ainda pior. Caso haja deterioração das condições hidrológicas, com redução do nível dos reservatórios das hidrelétricas, o impacto pode ser maior, já que o modelo desconsidera o acionamento de bandeiras tarifárias ao longo de 2026, mas considera a manutenção das atuais alíquotas de ICMS e PIS/Cofins.
“Caso o sistema elétrico enfrente um cenário de estresse hídrico que exija o acionamento das bandeiras, a pressão inflacionária da energia sobre o índice final poderá ser maior”, destaca Sousa.
Alta das tarifas pode chegar a 11%
Quanto às tarifas, a estimativa da TR Soluções é que, em média, tenham alta na faixa de 11% para os consumidores residenciais. Os cálculos foram feitos com base no Serviço para Estimativa de Tarifas de Energia (Sete) da empresa, que aplica os procedimentos de regulação tarifária para cada uma das 51 concessionárias de distribuição de todo o Brasil.
A projeção da TR Soluções é maior do que a perspectiva da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) divulgada em meados de março no “Info Tarifas”, que prevê que as contas de luz no Brasil devem subir 8% em 2026. O percentual da TR representa quase o triplo da estimativa do mercado para o IPCA, índice oficial de inflação, projetado em 4,1% no último boletim Focus do Banco Central.
Custos e clima pressionam tarifas
As principais causas dos aumentos são as variações dos custos dos contratos de compra de energia e das tarifas de transmissão, além da pressão da hidrologia, ou seja, o risco de um ano menos chuvoso nos reservatórios das principais hidrelétricas do Brasil.
Além disso, a projeção considera o início do fornecimento, a partir de agosto, de usinas contratadas por meio do Leilão de Reserva de Capacidade que somam mais de 2 GW e cujo efeito deve ser observado nos processos tarifários de maio em diante. “Isso deve empurrar a conta para cima, em cerca de 0,6% via encargos”
Já no caso das distribuidoras que passaram por evento tarifário no primeiro quadrimestre, o impacto dessas usinas na tarifa será percebido apenas a partir de 2027.
Alívios parciais nos custos
Apesar das pressões, alguns fatores devem ajudar a conter parte dos aumentos. O custo do serviço de distribuição deve crescer abaixo da inflação, e os subsídios da CDE (Conta de Desenvolvimento Energético) tendem a ter menor impacto.
Isso ocorre porque a Lei nº 15.269/2025 passou a incluir os consumidores livres no rateio desses subsídios, ampliando a base de contribuição. Vale lembrar que os subsídios foram responsáveis por 18,07% da tarifa dos consumidores residenciais.
Além disso, o fim da maior parte dos contratos do leilão emergencial realizado durante a crise energética de 2021 também contribui para aliviar os custos do sistema.
Consumidor livre deve sentir impacto nuclear
Por outro lado, consumidores do mercado livre vão enfrentar aumento de custos devido à mudança no rateio da energia das usinas nucleares Angra 1 e Angra 2.
A alteração, prevista na Lei 15.235/2025, deve acrescentar cerca de R$ 10 por megawatt-hora (MWh) às despesas desses consumidores.