Ícone do site O SERINGAL

Com juro alto, analistas dizem que FGTS para pagar dívidas é “enxugar gelo”

com-juro-alto,-analistas-dizem-que-fgts-para-pagar-dividas-e-“enxugar-gelo”

Com juro alto, analistas dizem que FGTS para pagar dívidas é “enxugar gelo”

O endividamento do brasileiro atinge números recordes. Cerca de 80% das famílias brasileiras estão com dificuldades de honrar os compromissos financeiros.

O cenário acendeu alerta no governo que estuda medidas para reduzir o alto índice de dívidas da população, e o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) entrou na mira do Planalto.

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho (PT), confirmou à CNN Brasil que o governo se prepara para liberar recursos do fundo, que podem alcançar cerca de R$ 7 bilhões e beneficiar aproximadamente 10 milhões de pessoas.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também falou sobre o uso do fundo e afirmou que o Desenrola 2.0 – novo programa para renegociação de dívidas – pode permitir o uso de recursos do FGTS para abater débitos.

As sinalizações preocupam especialistas e setores econômicos. A avaliação é de que a medida é pensada para o curto prazo e não traz uma solução estrutural para o endividamento, que está relacionado também ao atual patamar da taxa de juros. A Selic, mesmo após o corte anunciado pelo BC (Banco Central), segue no maior patamar dos últimos 20 anos.

 

 

Juliana Inhasz, professora de economia do Insper, acredita que usar fundo com essa finalidade é uma forma de tirar o “colchão” de segurança do trabalhador.

A especialista avalia que a medida apenas posterga um problema estrutural na sociedade brasileira: o reendividamento da população. Uma vez sacado para quitar dívidas, nada garante que aquelas pessoas não voltarão para o mapa de endividados no futuro. Inhasz acredita que o foco deveria ser voltado às causas, não aos resultados.

“Mesmo que empregada, a população tem renda muito baixa. A dívida é quase uma extensão da renda para promover acesso a itens considerados básicos”, explica.

Assim, além de não resolver completamente a questão da dívida, pode até ser um vetor para o aumento dela.

Consultora econômica e pesquisadora da FGV EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), Tatiana Pinheiro explica que “esse dinheiro pode virar consumo ou poupança. O que virar consumo, novas dívidas, a esse patamar de juros, pode sim resultar em inadimplência e aumento do endividamento à frente”.

Desde o fim do último programa do Desenrola, o Brasil registrou 9 milhões de novos inadimplentes. Em julho de 2023, quando o primeiro programa de renegociação de dívidas foi criado, havia 72,9 milhões de inadimplentes no Brasil. Já em fevereiro desse ano, esse balanço contabilizava 81,4 milhões.

Além da Selic, os juros que envolvem operações de crédito são ainda mais restritivos. Em fevereiro, o Banco Central informou que operações de crédito pactuadas com as famílias tinham média de juros de 62% ao ano. O número do rotativo do cartão de crédito, por sua vez, é expressivo: 435,88% ao ano.

Na análise de Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), os dados evidenciam que a medida ajudar a pagar incêndios pontuais.

“No entanto, não muda a estrutura de juros altos, nem a dependência das famílias em relação a linhas de crédito caras como o cartão, cheque especial e o próprio crédito pessoal”, avalia.

Em outras palavras: no curto prazo pode até funcionar, mas o problema vai além. Tão além que afeta não só a pessoa física como outros setores, por exemplo o imobiliário.

Hoje, o FGTS não é só uma poupança do trabalhador, mas também uma das principais formas de financiamento habitacional e imobiliário. O orçamento aprovado para esse segmento em 2026 é recorde, de mais de R$ 144 bilhões dentro de um total de R$ 160 bilhões em investimentos.

De acordo com a Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), o Fundo ajudou mais de 10 milhões de famílias a conquistarem a casa própria e movimentou aproximadamente R$ 1,3 trilhão em investimentos nos últimos 15 anos. Além disso, sustentou cerca de 2,3 milhões de empregos anuais no setor.

Em 2025, o FGTS financiou mais de 650 mil moradias, algo determinante para a queda do déficit habitacional, que diminuiu em 441 mil famílias entre 2023 e 2024. Essa é a maior redução já registrada em um único ano.

“Isso o tamanho da dependência do mercado imobiliário em relação ao Fundo, especialmente o Minha Casa, Minha Vida“, afirma Ataliba.

Poucas semanas atrás, o Conselho Curador do FGTS decidiu aumentar o teto de renda do programa MCMV, beneficiando familias brasileiras que buscam pela casa própria – mas a medida pode ser prejudicada com o Desenrola 2.0.

Isso porque, como explica Tatiana Pinheiro, ao usar o FGTS para resolver o endividamento existe uma melhora no balanço das famílias em partes, mas enfraquecimento de uma das principais fontes de financiamento habitacional.

“O efeito líquido tende a ser uma leve restrição ao crédito imobiliário no curto prazo, especialmente em um ambiente de juros ainda elevados”, explica.

Já de acordo com Luiz França, presidente da Abrainc, a medida vai prejudicar a habitação e, consequentemente, criar um problema social ainda maior, tendo em vista que o país já possui déficit habitacional.

“Temos que entender que ele [FGTS] foi feito para a habitação, saneamento e infraestrutura. Se você começa a tirar recurso do fundo, as pessoas que precisam comprar moradia deixam de ter essa oportunidade. Ao entorno dos condomínios cria-se vida, quando você tira isso, tira uma expectativa de futuro”, afirmou.

A dívida brasileira

De acordo com Fábio Gallo, professor de Finanças da FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas de São Paulo), a medida será como “enxugar gelo”. O acadêmico identifica que a dívida no Brasil é como uma febre, não adianta dar remédio sem entender a causa.

Para ele, a raiz do endividamento nasce do descontrole da economia brasileira de um lado, e de um problema sociocultural do outro. “Temos um problema fiscal gravíssimo no país e esse é o pano de fundo que leva à doença principal, que tem como sintoma a inflação”, avalia.

Para controlar essa “febre”, que é a inflação, é preciso aumentar juros, um remédio amargo e que desacelera a economia.

“Se deixa toda a busca de remédio e solução para a doença nas mãos do Banco Central. Aumentando os juros, você deixa as pessoas vulneráveis a desarranjos financeiros o que leva a esse endividamento que vemos no país”, explica.

Inflação alta mais juros nas alturas criam créditos difíceis de serem pagos – o que resulta na dívida vista na sociedade brasileira atual.

Juros altos são uma das principais causas de inadimplência no Brasil

Sair da versão mobile