Ao sentir o primeiro desconforto nos joelhos ao caminhar ou subir escadas, o instinto imediato da maioria das pessoas é suspender qualquer tipo de atividade física, acreditando que o repouso absoluto protegerá a perna contra novos danos. Para a medicina, no entanto, essa decisão de imobilidade é o ponto de partida para a destruição acelerada da estrutura do corpo: o joelho é uma engrenagem desenhada exclusivamente para o movimento, a partir do exercício físico.
Para desmistificar os fatores que realmente condenam a saúde da articulação e entender a mecânica de proteção do nosso corpo, a reportagem ouviu Pedro Ribeiro, médico ortopedista especialista em joelho e medicina regenerativa da clínica Orion. O diagnóstico do especialista subverte o senso comum: o desgaste precoce não é culpa do impacto em si, mas do enfraquecimento de quem está recebendo esse impacto.
“Costumo dizer que o sedentarismo e o sobrepeso são os principais hábitos que prejudicam o nosso joelho no dia a dia”, afirma. Ele detalha que muitos pacientes evitam o exercício por medo, ignorando que a atividade física é o único estímulo capaz de criar uma barreira de proteção.
“Às vezes as pessoas pensam em não praticar nenhum tipo de esporte ou exercício porque há risco maior de dano para o joelho. Porém, o esporte sempre nos estimula a manter o peso e o fortalecimento muscular”, alerta o médico. Quando uma pessoa perde massa magra e ganha peso, cada passo dado transfere uma carga esmagadora direto para os ossos, sem nenhum amortecedor ativo para dissipar a energia.
O “cadeado” muscular e a preservação da cartilagem
A anatomia do joelho é composta por uma rede complexa de ligamentos, mas a estrutura central que garante a fluidez da passada e impede que os ossos “raspem” uns nos outros é a cartilagem. Diferente de outros tecidos do corpo humano, ela possui uma capacidade de regeneração quase nula. “A cartilagem é o nosso maior item de raridade, de preciosidade dentro do joelho. Então, tudo o que a gente faz ao redor dele visa, justamente, proteger essa cartilagem”, explica.
A estratégia biológica para blindar essa área é a construção de uma barreira ao redor dos ossos. “O envelope muscular, como eu gosto de chamar, é um dos principais responsáveis pela estabilidade articular. E essa estabilidade é uma das principais responsáveis pelo menor desgaste da cartilagem”, explica o especialista. “Uma coxa volumosa e forte não é um padrão estético, mas um escudo físico”.
Para que o corpo suporte o peso de uma corrida ou de um simples agachamento sem esmagar o centro do joelho, ele depende do quadríceps (a parte da frente da coxa), da musculatura interna que estabiliza a patela (o vasto medial oblíquo), dos músculos da parte de trás da perna e das panturrilhas.
O médico ilustra a união dessas forças como um sistema de segurança fechado: “Costumo dizer que isso é como se fosse um cadeado. A gente tem que fortalecer muito bem a parte da coxa, tanto na anterior como na posterior, e a panturrilha para que esse joelho possa ter uma estabilidade maior”.
O excesso de carga e o uso de calçados específicos
Se a inatividade destrói o joelho por causa da fraqueza, o esporte executado sem orientação o prejudica pelo excesso de carga descontrolada. O treinamento físico precisa ser dosado, pois o exagero esmaga os tecidos articulares antes que eles tenham tempo de se recuperar do esforço anterior.
“O excesso de exercício também pode sobrecarregar o joelho. Então é óbvio que o treino tem que ser prescrito por um profissional da área, por alguém que tenha qualificação, e executado da maneira correta para que não haja prejuízo.”
O impacto da pisada repetitiva no asfalto ou na esteira também é moldado pela base de apoio que o praticante escolhe usar. A absorção inicial da força recai diretamente sobre os pés e, imediatamente, sobe para os joelhos.
O uso de calçados incorretos força a pisada torta e joga todo o impacto para as laterais da perna. “Hoje temos calçados específicos para cada modalidade. O uso do tênis adequado é essencial, principalmente nas atividades de impacto, assim como a atenção rigorosa à postura”, destaca o especialista.
O peso do encurtamento muscular na locomoção
Nos esportes que exigem contato e mudanças bruscas de direção, como o futebol, a exigência do corpo atinge seu nível máximo. O futebol lidera os índices de cirurgias ortopédicas no país devido às paradas rápidas e giros em alta velocidade. “Esses esportes necessitam de uma maturidade muscular melhor, porque existe uma rotação muito rápida”, aponta. Sem músculos fortes para “frear” o corpo, a força do giro estoura os ligamentos internos em uma fração de segundo.
Outra falha crônica, tanto nos esportes de alto impacto quanto na musculação, é o abandono da flexibilidade. Músculos curtos, rígidos e sem elasticidade repuxam o joelho para fora do seu eixo original. “O alongamento e a mobilidade são muito importantes, porque o encurtamento causa dificuldade e diferença na forma de locomoção e na amplitude do movimento”, explica o ortopedista. A orientação é que a rotina física nunca seja focada apenas em levantar peso. “É fundamental reservar um tempo antes da atividade principal para focar no alongamento e no fortalecimento, uma prática preventiva que tem ganhado cada vez mais destaque”, completa.
A identificação de que a estrutura do joelho entrou em colapso acontece por meio de duas categorias clínicas exatas de dor. As lesões agudas ocorrem imediatamente após traumas diretos ou entorses súbitos, gerando inchaço rápido e o chamado bloqueio articular, um travamento físico que impede o paciente de esticar ou dobrar completamente a perna.
Por outro lado, as lesões crônicas de acúmulo apresentam quadros inflamatórios persistentes, documentados clinicamente como tendinite patelar, tendinite do tendão quadricipital e tendinite da pata de ganso. Nesses cenários de desgaste contínuo, a dor torna-se arrastada e progressiva, piorando gradativamente a cada novo esforço físico repetitivo, e vem frequentemente acompanhada por episódios de instabilidade articular, em que a perna apresenta falseios visíveis durante a caminhada.
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