Há momentos na vida pública em que o silêncio se torna cumplicidade. O Acre atravessa um desses momentos. É preciso dizer com todas as letras: uma minoria barulhenta do meio jornalístico local transformou a atividade de informar em instrumento de chantagem, pressão e tentativa de extorsão contra o poder público.
Não se trata de crítica jornalística. Não se trata de liberdade de imprensa. Trata-se de algo muito mais rasteiro: o oportunismo travestido de jornalismo.
Nos bastidores, alguns poucos personagens — que se apresentam como defensores da verdade — atuam com uma lógica conhecida: pressionar, ameaçar publicar “denúncias”, insinuar escândalos e, em seguida, apresentar a conta. A moeda exigida não é a informação. É o dinheiro público.
Esse método, que degrada a profissão e envergonha os bons jornalistas, ganhou novos contornos nos últimos dias com ataques direcionados à Secretaria de Comunicação do Governo do Acre.
O desafio de Astério Moreira
A indicação do ex-deputado Astério Moreira para comandar a comunicação institucional do governo abre uma nova etapa — e também um enorme desafio. Sua nomeação será efetivada.
A Secretaria de Comunicação administra um orçamento milionário, mas esse dinheiro não pertence a veículos específicos, a grupos de pressão ou a jornalistas que se julgam donos da narrativa pública. Trata-se de um recurso carimbado, destinado exclusivamente à divulgação institucional, à transparência das ações de governo e à prestação de contas à sociedade.
O novo secretário terá uma missão clara:
tratar todos os veículos com igualdade, garantir critérios técnicos e, sobretudo, não se render a chantagens ou favorecimentos.
A responsabilidade é ainda maior porque Astério Moreira, antes de assumir o cargo, atua como articulista em veículos de grande alcance no estado e mantém relações pessoais conhecidas com proprietários de importantes meios de comunicação. Justamente por isso, a expectativa pública é de equilíbrio, impessoalidade e rigor institucional. Conhecerá a fatura paga a cada meio, e receberá pressões de todos os lados, inclusive do seu entorno mais íntimo.
Não se trata de favorecer amigos.
Nem de perseguir adversários.
Trata-se de cumprir a lei e proteger o interesse público.
A confiança da governadora
A confiança depositada pela governadora Mailza Assis não é apenas administrativa. É política e institucional.
O governo do Acre tem apresentado índices de aprovação consistentes e um conjunto de ações que precisam ser comunicadas com eficiência à população. Em um ano eleitoral, quando a governadora disputa um cargo majoritário, a comunicação institucional ganha ainda mais relevância — não como propaganda irregular, mas como dever democrático de informar o cidadão sobre as políticas públicas executadas com recursos do contribuinte.
A marca de Nayara Lessa
Nesse contexto, é impossível ignorar o legado da jornalista Nayara Lessa.
Sua saída da Secretaria de Comunicação não decorre de incompetência, tampouco de qualquer falha administrativa. Foi uma decisão política da governadora, legítima dentro da dinâmica de governo.
Mas há uma marca que precisa ser lembrada: Nayara Lessa não sucumbiu às chantagens.
Enquanto alguns se acostumaram a tratar o orçamento público como se fosse um cofre privado, ela manteve a linha institucional. Não abriu as portas para exigências indevidas. Não negociou silêncio. Não comprou tranquilidade editorial.
E essa postura, em determinados ambientes, tem preço.
A falsa vitória da chantagem
Chega a ser revelador que, diante de sua saída, um dos responsáveis por um site local tenha comemorado com fogos, ironias e deboches públicos. A atitude, longe de demonstrar força, apenas escancara o nível moral de certos operadores da chamada “imprensa de pressão”.
Falou-se em “vitória”.
Mas é preciso perguntar: vitória de quem?
Não é vitória do jornalismo.
Não é vitória da sociedade.
Não é vitória da ética.
A única vitória possível, neste episódio, é a vitória da resistência.
E ela se materializa na decisão de Nayara Lessa de recorrer à Justiça.
A resposta judicial
Uma petição protocolada na esfera criminal e no Juizado Especial, cuja autora é própria ex-secretária de Comunicação, aponta possíveis crimes contra a honra.
Entre os citados como coautores está o jornalista Leônidas Badaró, enquanto os ataques teriam sido veiculados por meio do site Portal Acre, oficialmente registrado em nome de terceiros.
O portal surgiu recentemente sob o discurso clássico do “jornalismo independente, responsável e a serviço da verdade”. Nos bastidores, entretanto, o que se relata é uma estrutura criada para fazer dinheiro por meio de pressão política e exigência de repasses financeiros incompatíveis com o orçamento público.
Entre os envolvidos aparece também Fredson Camargo, figura que sequer possui registro profissional no Ministério do Trabalho para atuar na área jornalística e que, segundo registros policiais, acumula histórico de denúncias relacionadas a violência doméstica e ameaças. É ele que aparece no foguetório, mostrando seu semblante assemelhado ao do personagem Lúcifer, de tão medonho e perigoso fora da ficção.
São fatos graves, que não podem ser ignorados.
A defesa do jornalismo de verdade
É fundamental deixar claro: a crítica ao oportunismo não é um ataque à imprensa.
Pelo contrário.
O Acre possui jornalistas sérios, profissionais que honram a profissão diariamente, enfrentando dificuldades estruturais, pressões políticas e limitações financeiras para manter viva a missão de informar.
São esses profissionais que mais sofrem quando uma minoria transforma o jornalismo em balcão de negócios.
O recado que precisa ser dado
A Secretaria de Comunicação não pode ser um caixa eletrônico para interesses privados.
O governo não pode negociar sua tranquilidade editorial.
E a imprensa não pode permitir que extorsão seja confundida com liberdade de expressão.
O novo secretário Astério Moreira terá diante de si uma escolha clara:
ou mantém a linha institucional, republicana e transparente,
ou abre espaço para que a chantagem se torne política pública.
O Acre espera — e merece — a primeira opção.
Porque, no fim das contas, a verdadeira vitória não será de sites, governos ou jornalistas.
Será da ética pública