O avanço dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro tem aberto espaço para um novo nicho de atuação no mercado financeiro: a compra e reestruturação de créditos estressados. Nesse cenário, empresas especializadas passam a atuar como intermediárias entre bancos e produtores endividados, ajudando a destravar ativos e reorganizar passivos em um setor pressionado por margens cada vez menores.
Segundo levantamento da MA7 Negócios, o volume de créditos estressados no Brasil já soma cerca de R$ 120 bilhões, com o agronegócio representando uma fatia crescente desse montante. Estima-se que aproximadamente 15% de todo o crédito do setor já apresente algum nível de estresse.
O movimento acompanha a escalada das recuperações judiciais. Apenas em 2025, estados do Centro-Oeste lideram os pedidos, com destaque para Mato Grosso (332), Goiás (296) e Paraná (248). A pressão é mais intensa no segmento de grãos, especialmente soja, cuja rentabilidade deve cair 47,6%, com margens reduzidas a cerca de 1,7 saca por hectare.
Para Paulo Vítor, head de novos negócios da MA7, esse cenário reflete problemas estruturais do setor combinados a um ciclo recente de expansão baseado em crédito.
“A gente viu uma pujança muito grande do agro nos últimos anos, mas também um crescimento relevante do endividamento. Agora, com a piora das margens e mudanças regulatórias, esses problemas começam a aparecer com mais força”, afirma.
Modelo baseado na compra de dívidas
A MA7 atua principalmente na aquisição e reestruturação de passivos bancários considerados não performados — ou seja, dívidas com baixa perspectiva de recuperação. Esses créditos são vendidos por bancos no mercado secundário, geralmente com desconto.
“A gente compra essas dívidas e tenta resolver junto com o produtor, de forma estruturada. Em alguns casos, isso pode envolver renegociação direta; em outros, caminhos judiciais”, explica Paulo Vítor.
Além disso, a empresa também atua no financiamento de litígios — como ações indenizatórias e cumprimento de sentença — e na aquisição de imóveis em situações estressadas, incluindo propriedades rurais e ativos urbanos.
Nos últimos anos, o agro ganhou protagonismo dentro da estratégia. “Sempre tivemos essa veia de investir em propriedades rurais, mas de três anos para cá intensificamos o olhar para o setor. E, desde 2024, com o aumento da oferta de créditos estressados, isso acelerou ainda mais”, diz.
O escritório de direito Stocche Forbes também vê um aumento de litígios no setor e o crescimento de interessados em oportunidades de fusão e aquisição. “Estamos participando de muitos processos de clientes querendo absorver empresas que passaram por problemas financeiros”, diz Vilmar Carreiro filho, advogado e sócio do escritório.
Alta demanda por reestruturação
De acordo com a MA7, a procura por reestruturação de dívidas no agro cresceu mais de 50% nos últimos 12 meses. Hoje, a empresa analisa diariamente entre cinco e dez novas oportunidades.
A maior parte dos casos envolve produtores inadimplentes, e não necessariamente empresas em recuperação judicial.
“Não é só quem está em RJ. A maioria são produtores que ainda estão tentando se reorganizar antes de chegar nesse ponto”, afirma o executivo.
O perfil é variado, indo de grandes grupos a produtores individuais, mas há maior concentração entre médios produtores, com faturamento anual entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões — justamente os mais pressionados pelo aumento de custos e queda de rentabilidade.
Consolidação à vista
Outro efeito do aumento do estresse financeiro é a tendência de consolidação no campo. Com mais ativos disponíveis — seja via venda direta, arrendamento ou execução de garantias — grupos capitalizados passam a ampliar participação.
“Tem muito produtor hoje buscando vender fazenda, arrendar ou captar crédito. Ao mesmo tempo, há grandes grupos com caixa para absorver esses ativos. Esse é um momento claro de consolidação no agro”, diz Paulo Vítor.
A MA7, que já realizou mais de 20 operações somando cerca de R$ 500 milhões, também atua nesse processo ao estruturar portfólios de ativos para investidores.
Carreiro Filho, do Stocche faz um alerta das oportunidades perdidas por produtores por terem fazendas insustentáveis e com terras degradadas. “Ao avaliarmos o ativo, vemos que é um passivo ambiental muito grande vale para o comprador, independentemente do valor”, afirma.
Ele cita como exemplo de compradores que não querem esse passivo ambiental a BrasilAgro, cujo presidente André Guillaumon declarou várias vezes estar atrás de oportunidades, enquanto os produtores estão enforcados financeiramente. “Mas não adianta comprar uma terra que terá problemas com a comunidade local ou com o a imagem da companhia perante os investidores”, fala o advogado.
Novo nicho em expansão
O crescimento desse mercado também atrai novos players. Segundo o executivo, já há dezenas de intermediários e corretores atuando na originação de operações com créditos estressados, embora poucas casas tenham estrutura mais especializada.
“Virou um nicho. Tem muita gente atuando, mas boutiques estruturadas ainda são poucas”, afirma.
Com o aumento das recuperações judiciais e a manutenção das pressões sobre o setor, a expectativa é de que esse mercado continue em expansão nos próximos anos — consolidando-se como uma peça relevante na reorganização financeira do agronegócio brasileiro.
