O cenário após a forte chuva que atingiu Rio Branco na tarde da última terça-feira (13) foi de desespero, lama e prejuízos para moradores da Rua Sebastião Amâncio, no bairro João Paulo II, região da Baixada da Sobral. Entre os atingidos está a dona de casa Daniele Nascimento, que viu o carro recém-adquirido ficar completamente submerso após o transbordamento de um córrego cuja solução, segundo ela, foi prometida diversas vezes pela prefeitura, mas nunca executada.
O veículo, que Daniele ainda paga em parcelas, terá de passar por abertura do motor para retirada de água misturada à lama, revisão completa do sistema eletrônico e substituição do estofamento dos bancos. O prejuízo estimado chega a quase R$ 8 mil.
A inundação ocorreu de forma repentina. Em poucos minutos, a enxurrada tomou conta da rua depois que a boca de um bueiro próximo à residência da família não conseguiu dar vazão ao grande volume de água. Segundo moradores, o problema se repete há anos sempre que chuvas mais fortes atingem a região.
Apesar do prejuízo material, o que mais revolta Daniele é lembrar das promessas feitas pelo então candidato e posteriormente prefeito de Tião Bocalom. De acordo com ela, o político esteve no local ainda em campanha eleitoral para o primeiro mandato, criticou a gestão anterior e gravou vídeos prometendo resolver o problema de drenagem da área.
Quatro anos depois, afirma a moradora, ele voltou ao endereço em nova campanha e repetiu o compromisso diante das câmeras e das redes sociais — sem que nenhuma obra definitiva tivesse sido realizada.
“Veio duas vezes aqui só criticar os outros e mentir para conseguir votos. No início deste mês ele renunciou ao mandato de prefeito sem cumprir a promessa que fez aqui em frente de casa. É um mentiroso nato que só sabe colocar culpa nos outros”, desabafou Daniele.
A reportagem do portal Oseringal consultou o plano de governo apresentado por Bocalom ao Tribunal Regional Eleitoral quando registrou candidatura à prefeitura em 2020. O documento previa, entre as prioridades da gestão, o projeto “Reabertura das Bocas de Bueiros”, com limpeza, desassoreamento e alargamento de pontos de escoamento em bairros considerados críticos.
Entre as áreas listadas estavam João Paulo II, Calafate, Sobral, Taquari e Cidade Nova. A proposta foi novamente citada no plano de gestão apresentado na campanha de reeleição.
Na prática, moradores dizem que apenas limpezas pontuais foram realizadas, principalmente em períodos eleitorais, sem intervenções estruturais capazes de resolver definitivamente o problema.
Enquanto as autoridades não aparecem, a solidariedade entre vizinhos tem sido a principal resposta ao desastre. Logo após a enchente, moradores se reuniram para empurrar carros, retirar móveis das casas atingidas e limpar a lama que tomou conta da rua.
Seu Raimundo, de 56 anos, morador antigo do bairro, afirma que o problema se agravou com o entupimento das bocas de bueiro.
“Nasci aqui. Esse córrego sempre encheu, mas antes a água descia rápido. Hoje fica represada porque as bocas dos bueiros estão todas entupidas. É só a prefeitura meter a máquina e abrir. Mas tem seis anos que só enrola. Quando chove, quem perde tudo é a gente”, lamentou.
A situação reacende críticas à gestão municipal justamente no momento em que Tião Bocalom deixou o cargo para disputar o governo do Acre, deixando para trás uma série de promessas registradas em planos de campanha que, segundo moradores de áreas afetadas pelas enchentes urbanas, nunca saíram do papel.
Entre a lama e o prejuízo, a população tenta recomeçar mais uma vez — enquanto espera que as promessas feitas em época de eleição finalmente se transformem em obras capazes de evitar novos alagamentos.