Eu acordei hoje com o coração mais leve. Talvez porque, em meio a tantas notícias duras que o nosso ofício de jornalista nos obriga a relatar todos os dias, desta vez a notícia que chegou até mim foi de esperança.
Nesta manhã conversei por telefone com o jornalista Tião Maia, que acaba de passar por uma cirurgia cardíaca. Foram muitos meses de preparação até que esse momento chegasse. Não apenas exames, consultas e decisões médicas, mas sobretudo um processo interno — de fortalecimento psicológico, de reconstrução da autoestima e de coragem para enfrentar um procedimento que todos sabíamos ser delicado e de risco.
Ouvi a voz dele ainda embargada, típica de quem atravessa o pós-operatório recente, mas cheia de vida. Tião, do jeito bem-humorado que sempre teve, chegou a brincar comigo durante a conversa.
“Tô aqui, com cara de poucos amigos”, disse.
Disse que está sendo muito bem assistido, elogiou as equipes médicas que, segundo ele, não o deixam desamparado em nenhum momento. E falou também com gratidão sobre a política pública de saúde que permitiu a realização do procedimento sem custos para ele. Um tipo de cirurgia que, na rede privada, poderia chegar facilmente aos 250 mil reais.
Confesso que me alegrei profundamente ao perceber o otimismo dele. Tião me disse que se sente bem e que encara agora uma nova fase da vida — a fase da recuperação plena, com mudança de hábitos, disciplina e foco na saúde. Há algo de muito bonito em ver alguém atravessar um momento tão delicado com essa disposição de recomeço.
Para mim, essa conversa também foi um convite à reflexão.
Tenho orientação religiosa e carrego comigo a convicção de que a vida nos ensina de formas inesperadas. No meio da comunicação, infelizmente, acabamos acumulando atritos, embates e até inimizades. Muitas vezes involuntariamente, mas inevitavelmente. As divergências de opinião, os confrontos profissionais e o calor das disputas nos fazem dizer ou fazer coisas que o tempo depois nos leva a reconsiderar.
Eu e Tião já tivemos embates tórridos no passado. Discussões duras, típicas de um ambiente profissional em que, por vezes, a paixão pelo que defendemos nos cega. Hoje reconheço que, naquele tempo, talvez eu não tivesse a clareza que a maturidade me trouxe.
Com o passar dos anos, aprendi que a melhor escolha muitas vezes é evitar contendas desnecessárias e se afastar de julgamentos precipitados. No fundo, raramente conhecemos a essência das pessoas. E a vida, com sua fragilidade tão evidente em momentos como este, nos lembra que o respeito e a cordialidade sempre valem mais.
Por isso, ao ouvir Tião hoje, senti gratidão e muita, muita leveza.
Gratidão por saber que ele está bem, por perceber sua força e sua esperança. E gratidão também pelo tratamento cordial que ele manteve comigo, mesmo depois de tantas brigas, ameaças mútuas e discussões carregadas de um ódio que não nos leva a lugar nenhum.
Isso reforça em mim a convicção de que não vale a pena cultivar o atrito, a desavença, a injúria ou a desonra — especialmente nesse ambiente tão contaminado que se tornaram as redes sociais.
A vida é curta demais para isso.
Hoje, meu sentimento é simples e sincero: desejo saúde ao Tião Maia. Que essa nova etapa seja de recuperação completa, serenidade e muitos anos de vida pela frente.
Que sua sabedoria natural, o dom da escrita, sua visão de mundo e senso crítico espelhem e motivem muitos que o admiram e respeitam. E são muitos.
E que nós, que vivemos da palavra, aprendamos cada vez mais a usá-la para construir — e não para ferir.
Por Assem Neto
