Dois médicos brasileiros apresentaram no fim de março, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, um estudo do instituto Dante Pazzanese de Cardiologia que compara valve‑in‑valve mitral por cateter com reoperação por cirurgia de peito aberto.
Em um ano, a taxa combinada de morte ou AVC incapacitante foi de 5,3% no grupo tratado por cateter e 20,8% no grupo cirúrgico. O procedimento por cateter também apresentou menos complicações imediatas, incluindo menor mortalidade precoce, menos sangramento e menor risco de lesão renal.
O estudo, coordenado pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e liderado pelo médico Dimytri Siqueira, avaliou pacientes que já haviam sido submetidos a cirurgia valvar. Os pacientes tinham idade média de 58 anos e a maioria eram mulheres. Setenta por cento apresentavam hipertensão pulmonar. Em média, passaram-se cerca de 14 anos desde a operação anterior.
Siqueira explicou que o estudo avaliou pacientes já submetidos a troca da válvula mitral e comparou nova cirurgia com implante por cateter. “Em pacientes operados previamente, em um ano, o implante por cateter reduziu morte, AVC e complicações.”
Em um ano, a taxa de morte ou AVC incapacitante foi de 5,3% no grupo valve‑in‑valve mitral e 20,8% no grupo submetido à reoperação por cirurgia, segundo a pesquisa. No curto prazo, o tratamento por cateter mostrou menos complicações imediatas, com menor mortalidade precoce, menos eventos hemorrágicos e menor incidência de lesão renal.
O cardiologista e diretor do instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, Fausto Feres, explicou por que o valve‑in‑valve mitral apresentou menor mortalidade e AVC.
“O procedimento do válvula em válvula mitral teve menor mortalidade e AVC principalmente devido ao alto risco cirúrgico que esses pacientes apresentam. Eles têm pressão arterial pulmonar elevada. No pós‑operatório, passam por intubação prolongada, acabam tendo mais infecções pulmonares, mais disfunção renal e acabam tendo uma maior mortalidade.”
Feres explicou as diferenças técnicas entre as abordagens e ressaltou a consequência clínica da técnica por cateter. Ele afirmou que o procedimento não exige abertura do tórax e proporciona recuperação rápida. “O resultado é imediato e a melhora é significativa, com alta em um ou dois dias.”
Ele comentou sobre indicação e seleção dos pacientes. Segundo Feres, aqueles com hipertensão arterial pulmonar já instalada, por causa do longo curso da doença valvar mitral, devem ser preferencialmente tratados com válvula‑em‑válvula mitral.
“Quando se pega uma população como essa, a superioridade do válvula‑em‑válvula mitral, pelo menos com um ano de seguimento, é nítida”, disse ele. Feres acrescentou que pacientes mais jovens, com risco cirúrgico menor ou candidatos a prótese metálica, continuam podendo ser indicados para cirurgia.
Distanciamento da última cirurgia
Sobre o tempo desde a última cirurgia, Feres afirmou que o intervalo médio de cerca de 14 anos contribui para degeneração da prótese e piora das condições cardíacas e pulmonares, o que favorece a indicação do procedimento por cateter.
Ele citou também a existência de filas de espera nos hospitais, com esperas de seis meses a um ano, que podem agravar o quadro dos pacientes e influenciar a decisão pelo método menos invasivo.
Na apresentação em Nova Orleans, a recepção do estudo foi favorável, segudo o médico, mas surgiram pedidos por dados de seguimento mais longo. Feres afirmou que a durabilidade da prótese implantada por cateter além de um ano ainda precisa ser avaliada.
Ele informou que os pacientes do estudo serão acompanhados anualmente com exames como ecocardiograma e tomografia para verificar se os resultados se mantêm ao longo do tempo.
Quanto à adoção mais ampla do valve‑in‑valve mitral no Brasil, Feres apontou barreiras: necessidade de treinamento e de centros especializados, capacitação por meio de proctors (supervisores de treinamento), custos e ausência de reembolso sistemático pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e por planos de saúde.
Ele disse que a disponibilidade de dispositivos não é o principal entrave. Feres concluíu que a técnica deve ser implementada em centros especializados e que o próximo passo é o acompanhamento de médio e longo prazo para avaliar a durabilidade do tratamento.
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