O SERINGAL

Mestres que nasceram dos projetos sociais têm suas histórias reunidas em livro inédito sobre o taekwondo no Acre

“Foi o taekwondo que me deu direção, me ensinou disciplina, autocontrole e responsabilidade quando eu ainda estava me formando como pessoa. Ele foi, sim, um divisor de águas na minha vida.” Histórias como essa, do mestre Clemerson Ribeiro, estão reunidas no livro “A história do taekwondo no Acre”, lançado no último dia 11, em Rio Branco, pelo historiador, caricaturista e artista plástico Enilson Amorim

A obra faz um resgate sobre José Carlos Gomes Guimarães, mestre Juca, precursor do taekwondo no estado, e mostra como essa modalidade tem mudado a realidade de centenas de crianças e jovens, que, desde então, também se tornam multiplicadores de uma arte que ensina autocontrole, perseverança e cortesia.

O presidente da Fundação Elias Mansour (FEM), Matheus Gomes de Sousa, ressalta que a publicação reafirma o compromisso do estado com a preservação da memória e da identidade cultural acreana. Foto: Selmo Melo/Divulgação

Financiado pelo edital da Fundação Elias Mansour (FEM), o livro conta com o apoio da Academia Acreana de Letras (AAL) e da Federação Acreana de Taekwondo do Estado do Acre (Feteac). A obra homenageia não apenas o mestre Juca, mas todos aqueles que impulsionaram esse movimento já consolidado no Acre, que conecta passado e futuro em uma engrenagem capaz de transformar cenários e vidas.

“Comecei a treinar com o mestre Juca em 1989, quando ele criou o primeiro projeto social de taekwondo no Acre. Neste projeto, acabei desenvolvendo um laço afetivo muito forte com ele. Meu pai havia se separado da minha mãe e voltado para Baturité, no Ceará, e o Juca, sendo meu mestre, acabou ocupando uma espécie de lugar paterno que eu não tive naquele momento. Ele me aconselhava a ser sempre um jovem de virtudes, porque o taekwondo não é apenas combate”, relembra Amorim.

E, para Amorim, o esporte também foi um caminho. Praticante da modalidade, ele faz uma analogia entre a vida e o taekwondo, explicando como essa prática moldou sua forma de ser e de enxergar o mundo. Foto: Selmo Melo/Divulgação

Um legado em páginas

Com o tempo, devido às demandas do dia a dia, ele conta que acabou se afastando por um período e retornou ao esporte durante a pandemia de covid-19. Naquela mesma época, uma visita do mestre Juca e de seu aluno, também mestre Ivan Iwamoto, fez surgir a ideia do livro, como forma de garantir que a história do início do taekwondo no Acre fosse preservada.

“Três meses depois da última entrevista que fiz com ele, o Juca acabou falecendo de covid, no dia 1º de agosto de 2021. Estive em seu sepultamento, no Cemitério Morada da Paz, junto com seus alunos e admiradores. Foi diante das lágrimas deles que percebi o tamanho da responsabilidade que havia caído sobre mim. A partir daquele momento, assumi o compromisso de contar não apenas a sua história, mas a história do taekwondo no Acre”, relata o escritor.

Lançamento ocorreu no último dia 11 em Rio Branco. Foto: Selmo Melo/Divulgação

E para Amorim o esporte também foi um caminho. Praticante da modalidade, ele faz uma analogia entre a vida e o taekwondo, explicando como essa prática moldou sua forma de ser e de enxergar o mundo.

“No meu caso, o taekwondo foi algo além, porque sempre teve uma relação direta com os caminhos que eu precisava seguir. Veja: eu era o mais jovem dos meus irmãos, morava na periferia, no Taquari, e tinha pais separados. Eu precisava de algo que me desse direção, um norte. A palavra tae significa ‘pé’, kwon quer dizer ‘punho’ ou ‘mãos’, mas do significa ‘caminho’. E esse era o caminho das artes. Acredito que, quando conheci o taekwondo, ele me ofereceu esse caminho desde cedo — o caminho da arte”, explica.

Projetos sociais formaram diversas crianças e jovens. Foto: arquivo pessoal

A força dos primeiros golpes

O primeiro grande marco do taekwondo no Acre, segundo o escritor, foram os projetos sociais criados pelo Mestre Juca em 1989 passando pelo projeto social de taekwondo dos guardas-mirins e os demais que permitiam a prática através de bolsas que a prefeitura e governo financiaram.

Estes projetos sociais motivaram a criação de inúmeros deles que inclusive foram implantados em diversos bairros periféricos como o Taquari. Destes projetos sociais formaram-se grandes homens e mulheres que poderiam ter seguido outros caminhos.

“No estado, temos bons exemplos disso como é o caso dos mestres Amâncio Antônio, Walison da Silva (falecido), Francisco de Gusmão, entre outros, que fizeram e fazem a história no taekwondo acreano. Por isso, o taekwondo transforma vidas.”

O livro está à venda na livraria Paim pelo valor de R$ 50. Mas o livro também estará sendo doado para bibliotecas e cantinhos de leitura do estado, considerando que é um projeto financiado com recursos públicos por meio do edital da FEM.

Mestres formados em projetos sociais também formam outros jovens através do legado. Foto: arquivo pessoal

O caminho da arte marcial, o olhar da arte visual

Em uma linha cronológica, para Clemerson Ribeiro, seu caminho foi moldado pela luta e pela arte visual. O menino da periferia tornou-se mestre em uma modalidade que, além de disciplina e técnica, treinou seu olhar para enxergar além e o transformou em referência, não apenas no taekwondo, mas também na fotografia esportiva. Ele se tornou, literalmente, o fotógrafo que o taekwondo formou.

Aluno de um dos diversos projetos sociais conduzidos por nomes importantes da arte marcial no Acre, Ribeiro iniciou na modalidade aos 13 anos, em um projeto social da Associação dos Servidores Municipais de Rio Branco (Assemurb), sob orientação do 6º Dan Itassi Camargo.

Além de mestre, Clemerson se tornou uma referência na fotografia esportiva, atuando na Secretaria de Comunicação e fortalecendo o taekwondo na sua região. Foto: cedida

“O que me motivou a escolher essa modalidade foi, inicialmente, a beleza dos movimentos e dos chutes, que sempre chamaram minha atenção. Com o tempo, passei a admirar ainda mais a disciplina, os valores e a filosofia do taekwondo, que foram fundamentais para minha formação dentro e fora do esporte. O taekwondo não formou só o mestre que eu sou hoje, ele formou o homem que eu me tornei. Desde o início, aprendi valores como autocontrole, disciplina, respeito e hierarquia, que passaram a fazer parte da minha vida dentro e fora do tatame”, destacou.

Para participar do projeto social, havia uma regra clara que era estar estudando e tirando boas notas. Essa exigência o aproximou da responsabilidade desde cedo e reforçou a ideia de que esporte e educação caminham juntos.

Formado em Educação Física (bacharelado) e faixa preta 4º Dan, Clemerson atua como diretor de marketing da Feteac, fotógrafo da Secretaria de Comunicação do Acre (Secom) e liderou um projeto social no bairro São Francisco entre 2018 e 2022.

Um divisor de águas

Para o mestre e fotógrafo, o taekwondo lhe deu propósito. Ele acredita que teria seguido um caminho completamente diferente se não tivesse encontrado a modalidade. Formado em Educação Física (bacharelado) e faixa preta 4º Dan, atua como diretor de marketing da Feteac, fotógrafo da Secretaria de Comunicação do Acre (Secom) e liderou um projeto social no bairro São Francisco entre 2018 e 2022.

Com o passar dos anos, dedicou-se a promover e desenvolver o taekwondo na região e, hoje, é presidente da Associação Acre Brasil de taekwondo (AABTKD). Um marco significativo em sua trajetória foi a graduação à categoria de Mestre, conquistada em 23 de novembro de 2024, na AABB, em Rio Branco, sob avaliação do presidente da Confederação Brasileira, Grão-Mestre Rivanaldo Freitas.

“Sinceramente, acredito que minha vida seria completamente diferente sem o taekwondo e talvez não no melhor sentido. Foi o taekwondo que me deu direção, me ensinou disciplina, autocontrole e responsabilidade quando eu ainda estava me formando como pessoa. Ele foi, sim, um divisor de águas na minha vida”, revela.

Para o presidente da Federação de Taekwondo do Estado do Acre (Feteac), mestre Tiago Marques, o lançamento do livro representa um marco para o esporte no estado. Foto: cedida

‘O taekwondo mudou quem sou’

Assim como encontrou no esporte a chance de transformar a própria vida, Clemerson Ribeiro hoje perpetua esse legado. Ele incentiva novos jovens, atua como mestre e se tornou uma das principais referências em fotografia esportiva no Acre, um olhar sensível que captura não apenas movimentos, mas também a emoção e a história por trás de cada gesto no tatame.

“Hoje, mais do que tudo, o que mais me marca é poder retribuir. Ajudar a transformar a vida de outras pessoas através do esporte, assim como transformaram a minha. O taekwondo não mudou só o meu caminho, mudou quem eu sou”, afirma. Ele lembra que, ao receber o convite para dar aulas, aceitou imediatamente. “Eu também vim de projeto social, então sabia exatamente o poder que aquilo tinha na vida de um jovem.”

Ribeiro conta que uma das experiências mais marcantes foi acompanhar a evolução dos alunos, crianças e adolescentes que chegavam muitas vezes sem perspectiva e, aos poucos, ganhavam disciplina, confiança e propósito. Para ele, ensinar taekwondo sempre foi mais do que repassar golpes ou técnicas, era formar pessoas, mudar histórias e mostrar que cada um deles podia ir além.

“Registrar a história do taekwondo no Acre é preservar a memória de todos aqueles que contribuíram para o crescimento da modalidade no estado”, avalia.

Ribeiro conta que uma das experiências mais marcantes foi acompanhar a evolução dos alunos, crianças e adolescentes que chegavam muitas vezes sem perspectiva. Foto: Arquivo pessoal

Ele destaca que muitas conquistas e personagens importantes acabam se perdendo com o tempo, e que a obra de Enilson Amorim cumpre um papel essencial ao valorizar essa trajetória e inspirar as futuras gerações.

“Esse livro é um marco para o nosso esporte. Mostra a evolução do taekwondo no Acre e fortalece a nossa identidade. Eu sou prova viva do poder transformador do esporte. Foi através dele que encontrei disciplina, direção e oportunidades que talvez eu não teria em outro caminho”, reforça.

Para Ribeiro, o esporte afasta jovens de caminhos perigosos, ensina valores, cria sonhos e mostra que é possível ir mais longe. “Quando você oferece oportunidade, orientação e propósito, você não está formando só atletas, está formando cidadãos. O esporte é um dos maiores motores de transformação social que existem.”

À frente da Federação, Tiago defende que o Taekwondo precisa continuar sendo um espaço democrático, onde todos tenham voz e oportunidade. Foto: arquivo

Raízes que moldam gerações

Para o presidente da Federação de Taekwondo do Estado do Acre (Feteac), mestre Tiago Marques, o lançamento do livro representa um marco para o esporte no estado. Ele destaca que a obra valoriza uma história construída coletivamente, muitas vezes de forma silenciosa.

Marques lembra que também iniciou no taekwondo por meio de um projeto social, experiência que foi determinante para sua formação pessoal. “Foi ali que aprendi valores que levo até hoje, como disciplina, respeito, perseverança e responsabilidade coletiva”, afirma.

À frente da Federação, ele defende que o Taekwondo precisa continuar sendo um espaço democrático, onde todos tenham voz e oportunidade de contribuir para o crescimento da modalidade. Para ele, o esporte salva vidas não apenas no sentido físico, mas principalmente na formação de caráter.

“Ao ensinar valores voltados ao coletivo e ao bem comum, o taekwondo oferece direção, propósito e pertencimento, especialmente para jovens que muitas vezes não teriam essas referências. É assim que o esporte muda realidades: formando cidadãos melhores e construindo uma sociedade mais consciente e solidária.”

Enilson Amorim registrou história do taekwondono estado. Foto: Selmo Melo/Divulgação

Preservação da memória

O presidente da Fundação Elias Mansour (FEM), Matheus Gomes de Sousa, ressalta que a publicação reafirma o compromisso do estado com a preservação da memória e da identidade cultural acreana.

“Cada obra que registra trajetórias, personagens e expressões do povo acreano fortalece o patrimônio imaterial do estado e inspira novas gerações a reconhecerem o valor de suas origens. Investir em cultura é investir na construção de um Acre mais consciente de si, mais valorizado e mais forte”, afirma.

Para ele, apoiar o livro é um privilégio para a Fundação Elias Mansour. “O lançamento da obra do nosso amigo Enilson Amorim reafirma nosso compromisso com a preservação da memória cultural do Acre.”

Sair da versão mobile