Era uma tarde comum de trabalho no Instituto Butantan, em São Paulo, quando Ivo Lebrun, pesquisador do laboratório de bioquímica, notou uma figura alta, vestida de preto e usando cartola na cabeça, parada junto ao Serpentário.
“Achei que conhecia aquela pessoa de algum lugar. E era justamente o guitarrista do Guns N’ Roses.” Era 1992, a segunda visita da banda ao Brasil, desta vez com a turnê “Use Your Illusion”, e Slash aproveitou a passagem por São Paulo para conhecer o acervo de serpentes.
Atualmente, o grupo de Los Angeles está no país para uma série de nove shows, que começou em Porto Alegre na última quarta-feira (1º). A próxima apresentação é justamente em São Paulo, neste sábado (4), no festival “Monsters of Rock”. Será que Slash vai aproveitar para visitar as cobras paulistanas de novo?
Como foi a visita de Slash ao Butantan em 1992?
Lá em 1992, Ivo descreve a visita como discreta e não programada. Slash circulou sem alarde, quando a banda já estava no auge. Acompanhado por dois homens, possivelmente seguranças, observou as cobras e seguiu para o Museu Biológico. “Ele ficou alguns momentos no serpentário. Circulou lá normalmente. Não cheguei a ter uma interação direta com ele, mas deu para ver bem a figura”, conta o pesquisador.
Segundo Ivo, a motivação era clara: o músico já tinha fama de aficionado por serpentes e, após saber que o Butantan é uma referência em serpentologia, quis ver de perto o trabalho do instituto.
No local, Slash demonstrou interesse técnico no trabalho com répteis e chegou a participar de uma demonstração de extração de veneno — procedimento ligado à produção de soros, segundo registros da época.
Ivo recorda que o guitarrista perguntou até sobre a possibilidade de comprar serpentes, tendo se interessado especialmente por jibóias e pela chamada cobra‑papagaio. O pesquisador explicou, porém, a diferença entre as cobras de museu — voltadas à difusão do conhecimento — e aquelas mantidas no biotério para finalidades científicas, como a produção de soros.
A visita de Slash ao Butantan se encaixa numa trajetória conhecida do músico: além de colecionador, ele já chegou a manter dezenas de répteis em casa e foi reconhecido por seu apoio à conservação desses animais. Matérias, como a da revista Reptiles, relatam que Slash teve uma coleção extensa — com ênfase em jiboia (Boa constrictor) e pythons — e acompanhou de perto a criação e manejo de suas espécies.
Você sabia que o guitarrista Slash, então na banda Guns N´Roses, visitou o Butantan em 1992 para conhecer o acervo de serpentes do Instituto? Até tirou veneno de cobra. Legal, né? Há 121 anos o Butantan faz ciência e reúne grandes histórias como esta. #ÉdoButantan #Tbt pic.twitter.com/QoZ5tAPntS
— Instituto Butantan (@butantanoficial) March 31, 2022
Incêndio devastador
Slash é tão antenado com esse mundo que, em 2010, anos após aquela visita histórica, o guitarrista manifestou publicamente tristeza pelo incêndio que devastou parte do acervo do Butantan. “Notícias muito trágicas sobre o Instituto Butantan em São Paulo, Brasil”, escreveu o músico no Twitter na ocasião, lamentando perdas significativas do museu e do material biológico. “85 mil cobras mortas.”
Para quem viu a visita de 1992 de perto, a preocupação do guitarrista com o destino das coleções pareceu sincera: “He era muito aficionado por serpentes. Gostou muito da jibóia e da cobra‑papagaio”, diz Ivo, que sublinha o comportamento calmo e a discrição do guitarrista durante a estada.
A memória de Ivo mistura o inusitado da cena, um ícone do rock entre tanques de répteis, com um respeito pelo conhecimento. “Foi um dia tranquilo e ele conseguiu passear pelo instituto sem problema nenhum. Aproveitou e conheceu um pouco as nossas cobras e o nosso trabalho.”
E, ao encerrar, Ivo resume a impressão que ficou do visitante: “Mas que o Slash é uma figura, isso é. Aliás, acho que é ele quem segura o Guns, porque ele é bom na guitarra.”
Não há um pedido oficial de Slash para visitar o Butantan nos próximos dias. Mas quem trabalha no instituto adoraria receber o músico para nova visita ao local de referência mundial.
“Saber que um dia um ídolo do rock internacional reconhecido mundialmente esteve nas dependências do meu atual local de trabalho, uma instituição tão renomada como o Instituto Butantan, é de um enorme prazer”, afirma Rodrigo Soares, assistente técnico do Butantan. “Seria espetacular, um grande presente, não só para os colaboradores do Instituto Butantan, mas também para o público em geral que frequenta o nosso Parque da Ciência, uma nova visita. Falo não só por mim, mas por diversas gerações de fãs colaboradores do Instituto.”
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