O jiu-jitsu é frequentemente descrito por seus praticantes como a “arte suave”, uma disciplina baseada no respeito mútuo e na superação pessoal. No entanto, o que se viu nos bastidores do Campeonato Acreano da Copa Pódio foi a face mais bruta e arcaica do preconceito. A derrota de Luiza (15) para Giovana Brilhante (16) na categoria juvenil não terminou no apito final; estendeu-se para o ambiente digital, transformando-se em um crime de racismo que agora mobiliza o Ministério Público.
Do Reclame à Injúria
Ao utilizar termos como “urubu fei do diabo” para se referir à oponente que a venceu tecnicamente, a agressora não apenas destilou frustração, mas reafirmou um léxico racista que desumaniza o corpo negro.
O episódio ganha contornos ainda mais graves pela reação do entorno da jovem. O apoio de seguidores, que ironizaram o peso da lei com frases como “vou me pintar de preta pra ver se ela para de falar”, revela uma perigosa sensação de impunidade e uma total inversão de valores, onde o agressor se coloca como vítima de uma suposta “perseguição” por ser branco.
Desculpas Tardias vs. Rigor da Lei
Embora Luiza e sua mãe tenham vindo a público pedir desculpas após a repercussão negativa, a família de Giovana agiu corretamente ao não aceitar o perdão como ponto final. O racismo não é um “erro de percurso” da juventude, mas um crime previsto em lei.
A investigação agora toma um rumo necessário:
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Investigação de Histórico: Professores e pais serão chamados a depor para apurar se o comportamento de Luiza é reincidente.
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Esfera Jurídica: O caso já tramita via queixa-crime na delegacia e representação no Ministério Público.
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Responsabilidade Digital: As duas páginas de Facebook utilizadas pela agressora estão sob análise, servindo como prova material do crime, e podem ser removidas caso a justiça assim entenda.
A Lição que o Esporte Deve Dar
O esporte de alto rendimento, especialmente nas categorias de base, deve ser um ambiente de formação de caráter. Quando uma atleta utiliza redes sociais para proferir ofensas raciais, ela falha não apenas como competidora, mas como cidadã. A conivência ou a tentativa de minimizar o fato — como visto nos comentários de seus seguidores — mostra que o combate ao racismo no Acre precisa ir muito além das notas de repúdio.
A postura da família de Giovana Brilhante é um exemplo de dignidade. Ao buscar a justiça, eles garantem que o tatame volte a ser um lugar de honra, e que o “urubu” mencionado de forma pejorativa voe alto, enquanto o preconceito seja, finalmente, finalizado.
