A gestão de Tião Bocalom (2021-2026) chega ao seu estágio de projeção estadual marcada por uma contradição flagrante na gestão do saneamento e dos recursos hídricos. Enquanto o prefeito ensaia sua caminhada rumo ao Palácio Rio Branco, o rastro deixado pela autarquia de água revela um cenário de permissividade com o topo da pirâmide e punição severa à base.
1. O Calote de Colarinho Branco
Entre 2020 e 2026, as campanhas de recuperação de crédito da prefeitura falharam sistematicamente em atingir o “andar de cima”. O montante do calote acumulado nesse período é astronômico, mas o dado mais alarmante não é apenas a cifra, e sim a origem:
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Indústrias e Empresas: Grandes complexos que consomem volumes massivos de água tratada mantêm débitos históricos, muitas vezes protegidos por manobras jurídicas ou pela falta de fiscalização técnica rigorosa.
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Zonas Nobres: O paradoxo se acentua ao observar que a inadimplência nos bairros de alta renda e condomínios de luxo muitas vezes supera, proporcionalmente, a de bairros periféricos, sem que medidas de corte ou negativação fossem aplicadas com o mesmo ímpeto.
- Pior: cifras não são reveladas, diferente da exposição criminosa contra inadimplentes com menor poder aquisitivo.
2. A Mão Pesada contra a Periferia
Recentemente, a gestão mudou o tom. A ameaça de enviar o nome de usuários inadimplentes para o Serasa recaiu como uma sentença sobre a população mais pobre. Aqui reside a maior injustiça social:
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Água como Direito vs. Mercadoria: Para o pequeno consumidor, que muitas vezes sofre com o desabastecimento crônico e a má qualidade da água que chega à torneira, a cobrança vem acompanhada do rigor do mercado financeiro.
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O “Custo Serasa”: Negativar um trabalhador por uma conta de água em atraso significa retirá-lo do mercado de consumo e dificultar seu acesso ao crédito para itens básicos, como alimentos e remédios.
3. O Projeto Político e a Miopia Administrativa
A intenção declarada de Bocalom de disputar o Governo do Estado entra em rota de colisão com esses resultados. Um gestor que não consegue equalizar as contas de uma autarquia municipal sem sacrificar os mais vulneráveis levanta dúvidas sobre sua capacidade de gerir a complexa máquina estadual.
O fracasso em reaver os recursos dos grandes devedores não é apenas uma falha contábil; é uma escolha política. Ao optar por não “comprar briga” com os setores produtivos e as elites econômicas, a gestão transferiu o ônus do déficit orçamentário para o CPF do cidadão comum.
Síntese do Cenário (2020-2026)
| Perfil do Devedor | Abordagem da Gestão | Impacto Social |
| Grandes Empresas/Indústrias | Campanhas ineficazes e judicialização lenta. | Perda de milhões em investimentos para a rede. |
| Classe Alta/Condomínios | Fiscalização frouxa. | Sensação de impunidade e privilégio. |
| Usuários Pobres | Ameaça de Serasa e cortes. | Exclusão financeira e precarização da vida. |
“Não se constrói uma candidatura ao governo punindo quem tem menos para cobrir o rombo deixado por quem tem mais. A água, em Rio Branco, tornou-se o espelho de uma gestão que olha para o Palácio, mas esquece o quintal de quem mais precisa.”