Licitação bilionária vai explodir no colo de Alysson Bestene e reacende suspeitas sobre relação de Bocalom com a Ricco

O anúncio do novo edital para concessão do transporte coletivo de Rio Branco, feito nesta segunda-feira (9) pelo prefeito Tião Bocalom, reacendeu um tema que se arrasta há anos na capital acreana: a controversa relação da prefeitura com a empresa Ricco Transportes e as denúncias de favorecimento que pairam sobre o sistema desde o início da atual gestão.

Após quase seis anos de contratos emergenciais e sucessivas críticas à precariedade do serviço prestado à população, a prefeitura decidiu lançar agora — a menos de um mês da saída de Bocalom do cargo para disputar o governo do Acre — um edital bilionário que prevê a concessão do transporte coletivo por dez anos, com valor global estimado em mais de R$ 1 bilhão.

O movimento levanta questionamentos inevitáveis: por que somente agora?

Durante todo o mandato, o transporte coletivo de Rio Branco operou sob contratos temporários renovados sucessivamente, justamente o modelo que o próprio prefeito agora critica como um entrave para investimentos. No período, a operação ficou nas mãos da Ricco, empresa que assumiu o sistema em meio a um cenário de colapso e desde então passou a atuar em regime emergencial.

A coincidência entre a permanência prolongada desse modelo e a demora na abertura de uma licitação definitiva alimentou suspeitas políticas e administrativas. Críticos da gestão apontam que o sistema emergencial acabou criando um ambiente confortável para a manutenção do status quo, sem a pressão de uma concorrência pública real.

Agora, quando a gestão se aproxima do fim, surge um edital monumental, com cifras astronômicas e regras que preveem um único operador para todo o sistema — modelo que, embora defendido pela prefeitura como forma de reduzir custos administrativos, também costuma ser alvo de críticas por reduzir a concorrência e concentrar o controle do serviço.

Outro ponto que chama atenção é o tamanho da conta: mais de R$ 1,01 bilhão ao longo de dez anos, com remuneração baseada em quilômetro rodado e não mais no número de passageiros transportados. A mudança segue tendências adotadas em outras cidades, mas também transfere ao poder público uma responsabilidade maior sobre o equilíbrio financeiro do sistema.

O problema político, no entanto, está menos no modelo técnico e mais no timing da decisão.

Ao lançar uma licitação desse porte às vésperas de deixar o cargo, Bocalom repete um padrão já conhecido de sua gestão: o anúncio de projetos grandiosos, muitas vezes de difícil execução, que acabam empurrados para administrações futuras. Na prática, o edital pode se transformar em mais uma “batata quente administrativa” para quem assumir o comando da prefeitura.

Tudo indica que esse peso pode cair diretamente no colo do atual vice-prefeito, Alysson Bestene,  sucessor caso Bocalom se afaste para disputar o governo estadual.

Caso o processo enfrente impugnações ou judicializações — algo comum em licitações desse porte — caberá ao próximo gestor lidar com os desdobramentos políticos, jurídicos e financeiros do projeto.

No fim das contas, a pergunta que ecoa nos bastidores políticos e entre usuários do transporte coletivo é simples:
se a licitação era tão necessária para dar segurança jurídica ao sistema, por que ela não foi feita antes?

Para muitos observadores da política acreana, a resposta pode não estar apenas na burocracia ou nas mudanças da legislação de licitações, mas em um enredo mais complexo que envolve interesses empresariais, conveniências políticas e o velho hábito de deixar decisões difíceis para o sucessor.

Enquanto isso, quem continua pagando a conta — diariamente — é a população que depende do transporte coletivo de Rio Branco.