Delegado que deveria proteger a lei é condenado por perseguir ex-namorada no Acre

A condenação do delegado da Polícia Civil Luiz Tonini por perseguição contra a própria ex-namorada, uma agente de polícia civil, expõe mais um capítulo constrangedor para as instituições responsáveis por garantir segurança e respeito à lei no Acre. A sentença, proferida pela Justiça na comarca de Epitaciolândia, fixou pena superior a dois anos de prisão, além do pagamento de indenização de R$ 20 mil à vítima.

Embora a condenação represente um reconhecimento judicial da violência sofrida pela agente, o caso levanta questionamentos inevitáveis sobre o comportamento de quem deveria justamente combater crimes como esse. O delegado, que atuava como coordenador da delegacia local à época dos fatos, acabou se tornando protagonista de uma situação que simboliza a contradição entre o discurso institucional de proteção às vítimas e a realidade enfrentada dentro da própria estrutura policial.

O episódio ocorreu em julho de 2023. Mesmo após a Justiça conceder medida protetiva à vítima, o delegado descumpriu a ordem judicial e tentou invadir a casa da ex-namorada, chegando a pular o muro da residência. A polícia foi acionada e ele acabou preso em flagrante. Dois dias depois, no entanto, recebeu liberdade provisória mediante medidas cautelares.

Desde então, Tonini está afastado das funções na Polícia Civil, situação que já se arrasta há mais de dois anos enquanto o processo seguia em tramitação.

A sentença agora reconhece a prática de perseguição — crime que passou a ser tipificado de forma mais clara no ordenamento jurídico brasileiro nos últimos anos — mas mantém o cumprimento da pena em regime aberto. O delegado também poderá recorrer da decisão em liberdade.

O caso, porém, vai além da esfera criminal. Ele reacende um debate delicado sobre abuso de poder, cultura institucional e a dificuldade enfrentada por mulheres que denunciam violência, inclusive quando o agressor ocupa posição de autoridade.

Quando um delegado — figura que representa o braço investigativo do Estado — se vê condenado por perseguir uma mulher e descumprir ordem judicial, a mensagem que ecoa para a sociedade é preocupante. Não se trata apenas de um crime individual, mas de um teste para a credibilidade das instituições que juram proteger vítimas e fazer cumprir a lei.

A condenação pode ser um passo importante para a responsabilização, mas também evidencia o longo caminho que ainda precisa ser percorrido para que o sistema de justiça seja, de fato, um espaço seguro para todas as mulheres — inclusive aquelas que vestem a própria farda do Estado