A inauguração da primeira etapa do viaduto no cruzamento da Avenida Ceará com a Avenida Getúlio Vargas, realizada nesta quinta-feira (26) pelo governador Gladson Cameli, deveria ser apenas mais um marco administrativo no conjunto de obras de mobilidade urbana executadas no estado. Com investimento de R$ 40 milhões — fruto da soma de recursos do governo estadual, federal e, sobretudo, de emendas da bancada federal —, a obra simboliza um esforço coletivo que, ao menos em tese, deveria ser celebrado sem disputas individuais por protagonismo.
A ausência do senador Alan Rick na cerimônia chamou atenção tanto quanto suas declarações anteriores. Pré-candidato ao governo do Acre, o parlamentar vinha afirmando, em vídeos gravados ainda durante a execução da obra, ser o responsável pela destinação de emendas que viabilizaram o viaduto. A narrativa, no entanto, não se sustenta diante dos fatos: cerca de R$ 25 milhões foram destinados de forma conjunta pela bancada federal acreana — composta por oito deputados federais e três senadores — em um claro esforço coletivo, e não individual.
A tentativa de personalizar um investimento dessa magnitude revela mais do que uma simples divergência de versões. Expõe uma estratégia política que flerta com a desinformação ao buscar capitalizar, de forma isolada, um resultado que pertence a muitos. Ao optar por não comparecer à inauguração, Alan Rick não apenas se ausentou de um momento institucional relevante, como também deixou sem resposta pública a discrepância entre seu discurso e a realidade dos números.
O episódio ganha contornos ainda mais delicados quando somado a outro recente movimento do senador: sua presença em uma obra inacabada em Sena Madureira, ao lado do prefeito local, em um ato que soou como inauguração antecipada. Segundo o governo estadual, tratou-se de uma ação irregular, caracterizada como “invasão” do canteiro de obras — o que reforça a percepção de uso político de intervenções públicas ainda em andamento.
Enquanto isso, o governador Gladson Cameli adota um tom mais institucional ao reconhecer o papel da bancada como um todo. Ao declarar que “essa obra teve o apoio da bancada federal”, evita a personalização e reforça a lógica republicana de cooperação entre entes e representantes. Em tempos de acirramento político, a postura contrasta com tentativas de apropriação individual de conquistas coletivas.
Mais do que um novo eixo de mobilidade para Rio Branco, o viaduto recém-inaugurado se transforma, simbolicamente, em um divisor de narrativas. De um lado, a política que reconhece o esforço conjunto e respeita a inteligência do eleitor. De outro, a construção de versões que, confrontadas com os fatos, se aproximam perigosamente da ficção.
No fim, a obra cumpre seu papel urbano ao melhorar a trafegabilidade. Mas também escancara um velho problema da política: a disputa pelo crédito, mesmo quando ele não cabe a apenas um nome.