O mercado brasileiro de cacau iniciou 2026 com forte alta na oferta de matéria-prima, mas a indústria ainda não acompanha esse ritmo, evidenciando um descompasso relevante na cadeia produtiva.
Dados compilados por consultorias do setor e divulgados pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) mostram que o recebimento de amêndoas somou 28,6 mil toneladas no primeiro trimestre deste ano, um crescimento de 61,1% em relação ao mesmo período de 2025.
Apesar do avanço expressivo na comparação anual, o volume representa uma queda de 52,1% frente ao quarto trimestre do ano passado, movimento considerado sazonal por conta da entressafra.
A produção segue concentrada em poucas regiões. Bahia e Pará responderam juntas por mais de um terço do total nacional no período. A Bahia lidera, com cerca de 16,2 mil toneladas, enquanto o Pará chama atenção pelo forte crescimento, com alta de quase 170% na comparação anual, consolidando-se como uma fronteira relevante de expansão da cacauicultura.
Outros estados, como Espírito Santo e Rondônia, ainda têm participação marginal, o que reforça a concentração da produção brasileira em poucos polos.
Mesmo com maior disponibilidade de matéria-prima, a indústria não ampliou o processamento. A moagem de cacau no primeiro trimestre somou 51,7 mil toneladas, praticamente estável em relação ao mesmo período do ano passado.
O dado evidencia um gargalo estrutural: há mais cacau sendo produzido, mas isso não está se convertendo em maior atividade industrial. Na prática, o crescimento da oferta não encontra demanda suficiente no processamento, limitando o avanço da cadeia como um todo.
Já as importações somaram 18 mil toneladas de amêndoas, uma queda de 37,5% sobre mesmo período do ano anterior.
De acordo com Ana Paula Losi, presidente-executiva da AIPC, o Brasil inicia 2026 com maior oferta de cacau, mas sem reação na moagem e na comercialização, que mostra que os principais limitantes à atividade industrial estão na demanda e na competitividade dos mercados internacionais.
Esse cenário levanta preocupações para o setor, que precisa equilibrar produção, capacidade industrial e mercado consumidor. Sem expansão da demanda, seja interna ou via exportações, o risco é de pressão sobre preços e perda de valor para produtores.
As exportações também recuaram. Entre janeiro e março foram embarcadas 12,5 mil toneladas, volume 15,4% menor o que registrado em igual período do ano passado. A Argentina permaneceu como principal destino, com 47% do volume exportado, seguido pelos Estados Unidos, e México.