A COP30, realizada em novembro passado, consolidou o que já estava claro: a transição energética tornou-se o novo eixo de competitividade global. Países reforçaram compromissos e aceleraram metas, deixando evidente que o século XXI será moldado por eletricidade renovável, inovação tecnológica e novos modelos industriais de baixo carbono.
Nesse cenário, o Brasil saiu da COP30 com posição de destaque. Nós, da indústria de energia elétrica, em parceria com o Cebds (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) e executado pela PSR, apresentamos no documento da Coalizão do Setor Elétrico conclusões claras sobre a força da nossa posição atual.
Somos um dos poucos países capazes de oferecer a nossa energia limpa e competitiva e como plataforma de desenvolvimento econômico e social. Temos uma matriz elétrica 93% renovável, recursos naturais abundantes e um histórico regulatório respeitado internacionalmente.
Mas, apesar dessas vantagens que o mundo inteiro gostaria de ter, o Brasil corre um risco concreto: o risco de perder para ele mesmo. O paradoxo de quem tem tudo — e entrega pouco.
O país venceu a etapa mais difícil: construiu uma matriz elétrica limpa e robusta, garantindo o acesso a 99% da população, antes de praticamente todo mundo e desenvolveu um Sistema Interligado Nacional que é referência para o mundo todo.
No entanto, vive um paradoxo que compromete sua competitividade: a energia é barata na geração, mas cara para quem consome, representando cerca de 18% do salário mensal de pessoas de baixa renda.
Essa contradição dilui nossa principal vantagem no exato momento em que o planeta busca urgência, segurança energética, previsibilidade e combate à pobreza energética. Enquanto boa parte do planeta disputa cada megawatt renovável, o Brasil ainda deixa escapar parte do valor da nossa energia limpa e competitiva, travada por distorções tarifárias que não refletem seu potencial real na economia.
É uma forma de autossabotagem: não é o mundo que nos bloqueia — somos nós que ainda dificultamos a entrega da nossa própria vantagem à sociedade.
Infraestrutura, integração e coerência
A COP30 deixou claro que a segunda etapa da transição energética é tão desafiadora quanto a primeira. Não basta gerar energia renovável — é preciso transmiti-la, armazená-la, integrá-la à política industrial e garantir que chegue competitiva ao consumidor.
O Brasil precisa enfrentar quatro desafios decisivos: expandir e modernizar transmissão; incorporar armazenamento e flexibilidade; alinhar energia limpa à política industrial, atraindo data centers, hidrogênio verde e indústrias eletrointensivas; e revisar a estrutura tarifária para que o benefício chegue à economia real.
Sem isso, nossa liderança evaporará — mesmo em um país que oferece em abundância energia limpa e competitiva capaz de impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento.
Dois bônus que não podem ser desperdiçados
O Brasil possui dois ativos únicos: o bônus verde, que transforma nossa matriz renovável em poder geopolítico e vantagem econômica. E o bônus social, que pode reduzir desigualdades e aumentar produtividade com energia acessível.
Mas nenhum bônus se realiza sem coordenação entre energia, indústria, financiamento e planejamento. Continuaremos entregando menos do que poderíamos — e deixando outros países capturarem oportunidades que naturalmente seriam nossas.
Depois da COP30, resta uma pergunta: o que o Brasil fará com sua vantagem?
A conferência de Belém deixou claro que o mundo espera exemplos reais de transição justa, competitiva e integrada ao desenvolvimento socioeconômico. O Brasil tem tudo para ser esse exemplo — mais do que qualquer outro país emergente.
Mas protagonismo não se sustenta no discurso; se sustenta em clareza regulatória, coerência política, infraestrutura preparada, competitividade tarifária, visão industrial e capacidade de execução.
Temos o recurso, a tecnologia e a credibilidade. Não temos o privilégio de desperdiçar tempo.
Se falharmos agora, não será por falta de energia renovável ou tecnologia — será por falta de decisão. E perderemos não para Europa, China ou Estados Unidos. Perderemos para nós mesmos — a derrota mais evitável da nossa história recente.
* Elbia Gannoum é presidente executiva da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias)