Um levantamento do MapBiomas divulgado nesta quarta-feira (4) aponta que a área urbanizada em favelas brasileiras cresceu 150% entre 1985 e 2025, enquanto 77,6% desses territórios perderam pelo menos 10% da vegetação no período.
A expansão fez a área ocupada por essas comunidades passar de 60,2 mil para 151,7 mil hectares em todo o país. O estudo também aponta que a disponibilidade de vegetação dentro das áreas urbanizadas das favelas caiu cerca de 34% em quatro décadas.
Em 1985, havia 0,060 hectare de vegetação para cada hectare urbanizado nesses territórios. Em 2025, o índice caiu para 0,040 hectare.
Fora das favelas, o movimento foi diferente: a disponibilidade de vegetação intraurbana aumentou aproximadamente 10%, passando de 0,042 para 0,046 hectare por hectare urbanizado.
Os dados fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, que reúne mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil. O levantamento analisou a expansão das cidades, a perda de vegetação e a exposição de áreas urbanizadas a riscos ambientais entre 1985 e 2025.
Expansão urbana
Em todo o país, a área urbanizada cresceu 132% em 40 anos, passando de 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares. Em 83,3% dos municípios brasileiros, a área urbana pelo menos dobrou no período.
As favelas estão distribuídas por 651 municípios. Das 12,3 mil comunidades mapeadas, 9.895 já apresentavam área urbanizada em 1985.
Desse grupo, 42,4% pelo menos dobraram de tamanho até 2025. Mais de 60% da área urbanizada em favelas existente no ano passado surgiu depois de 1985.
A expansão também apresenta diferenças em relação à urbanização brasileira em geral. Nas favelas, 54% do crescimento da área urbanizada ocorreu sobre áreas naturais.
No conjunto do país, a principal origem da expansão foi a conversão de pastagens, responsável por 38% da área que se urbanizou no período. Em números absolutos, porém, a conversão de vegetação natural foi maior fora das favelas: 866,8 mil hectares, contra 49,5 mil hectares nas comunidades.
Regiões
A região Norte concentra 27,9% de toda a área urbanizada em favelas do país, embora reúna 9,4% da área urbanizada brasileira.
Manaus lidera em extensão, com 10,5 mil hectares distribuídos em 235 comunidades. São Paulo tem 1.359 favelas, quase seis vezes mais, mas soma 6 mil hectares de área urbanizada nesses territórios.
Menos vegetação e mais calor
A vegetação urbana brasileira diminuiu 35,9% entre 1985 e 2025, passando de 6,5 milhões para 4,1 milhões de hectares. O indicador considera tanto a vegetação dentro das áreas urbanizadas quanto a localizada no entorno dos perímetros urbanos.
Em 2025, pela primeira vez na série histórica, a área urbanizada sem vegetação superou a área total de vegetação urbana: eram 4,24 milhões de hectares sem cobertura vegetal, diante de 4,14 milhões de hectares com vegetação.
A redução de áreas verdes também está associada à maior intensidade das ilhas de calor.
Em setores censitários urbanos com até 10% de cobertura vegetal, a diferença média de temperatura da superfície chega a 5 °C no verão. Já em áreas com 80% de vegetação, o índice cai para 1,1 °C.
Em aproximadamente um quarto dos setores censitários urbanos analisados, a superfície das áreas urbanizadas apresenta temperatura mais de 7 °C superior à das áreas não urbanizadas do entorno. A média nacional dessa diferença é de 2,73 °C.
Segundo o MapBiomas, os dados se referem à temperatura da superfície, e não à temperatura do ar. A análise indica que áreas com menor cobertura vegetal tendem a registrar temperaturas mais elevadas.
Favelas em áreas de risco
O levantamento também identificou aumento da área urbanizada em favelas localizadas em zonas de suscetibilidade muito alta a inundações e deslizamentos.
Entre 1985 e 2025, a área urbanizada em comunidades situadas em regiões com alta suscetibilidade a inundações cresceu 117%. A média anual passou de 3.741 hectares no período de 1985 a 1989 para 8.111 hectares entre 2020 e 2025.
Nas áreas suscetíveis a deslizamentos, o crescimento foi de 12%. A média anual chegou a 4.456 hectares no período mais recente analisado.
O Pará registrou a maior extensão de favelas em áreas de suscetibilidade muito alta a inundações, com 2.059 hectares. Proporcionalmente, o Amapá apresentou o maior índice: 92% das favelas do estado estão nessa condição. No caso dos deslizamentos, o Rio de Janeiro concentrou a maior área, com 781 hectares.
O MapBiomas ressalta que os indicadores apontam a suscetibilidade dos territórios a inundações e deslizamentos, mas não significam que os desastres tenham efetivamente ocorrido nesses locais.
Para Julio Cesar Pedrassoli, coordenador do tema Urbano no MapBiomas, a perda de vegetação e a expansão da ocupação em áreas suscetíveis a eventos climáticos reforçam a necessidade de incluir as favelas no planejamento das cidades e nas políticas de adaptação às mudanças climáticas.
Luz artificial noturna
A área com luz artificial noturna detectável por satélite cresceu 37% entre 2013 e 2025, um acréscimo de 1,7 milhão de hectares. No período, a expansão foi 2,5 vezes mais rápida do que o crescimento da área urbanizada.
A categoria de intensidade muito alta teve o maior aumento, de 57%. O Sudeste concentra 40% da área com luz artificial noturna mapeada no Brasil, apesar de ocupar 11% do território nacional. Já a região Norte reúne 8% dessa área e corresponde a 45% do território.
Minas Gerais e São Paulo responderam por 29% da expansão registrada no período, com acréscimos de 256 mil e 238 mil hectares, respectivamente. Mato Grosso teve o maior crescimento proporcional entre as unidades da Federação, de 97%.
De acordo com o MapBiomas, a presença de luz detectável por satélite não equivale necessariamente à área urbana, à renda ou à qualidade da iluminação.
O indicador pode ajudar a identificar mudanças na atividade humana e possíveis impactos ambientais, mas precisa ser analisado em conjunto com outras informações.
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por luisehomobono.
