O SERINGAL

Moradores mudam rotina para sobreviver a ataques de elefantes no Sri Lanka

Moradores mudam rotina para sobreviver a ataques de elefantes no Sri Lanka

Vestindo seu uniforme cáqui de guarda florestal, Dewagiri Mudiyanselage Thilakaratne Bandara, de 48 anos, sai de casa para um breve trajeto com o objetivo de consertar a cerca elétrica — o único obstáculo entre sua vila e cerca de 100 elefantes selvagens que habitam a reserva florestal próxima.

A cerca estende-se ao longo do reservatório de Siyambalangamuwa, uma área de água que os elefantes — confinados em um habitat cada vez mais reduzido — tentam atravessar a nado para chegar às vilas em busca de alimento.

As por volta de 2.000 famílias que vivem no local estão na linha de frente de um dos piores conflitos entre humanos e elefantes no mundo.

O Sri Lanka registra, anualmente, o maior número de mortes de elefantes e o segundo maior número de mortes humanas decorrentes desse conflito.

Desde 2019, uma média de 370 elefantes e 125 pessoas perderam a vida a cada ano. Em 2025, o país registrou um recorde de 397 mortes destes animais selvagens, segundo dados do Departamento de Conservação da Vida Selvagem. Desses, 71 foram mortos a tiros, 56 morreram eletrocutados por cercas e linhas de energia mal conservadas, e 46 morreram em colisões com trens.

É uma relação complexa. Os cingaleses possuem profundos laços culturais com os elefantes, utilizando-os em desfiles durante festivais religiosos coloridos. Esses animais são um pilar da indústria turística da ilha — um setor que movimenta 4 bilhões de dólares —, e possuir um elefante ainda é considerado um símbolo de status.

Bandara cresceu convivendo com elefantes. Ele sabe, por experiência própria, o quão devastador pode ser um encontro com esses animais.

Em dezembro passado, um elefante entrou em seu quintal para comer mangas e o atacou, quebrando sua perna em três lugares e deslocando seu ombro.

Sua esposa, Rathnayake Mudiyanselage Shirani Ratnayake, de 48 anos, correu para ajudar e também foi pisoteada. Sua perna direita precisou ser amputada. Hoje, ela utiliza uma cadeira de rodas.

“Nossas vidas estão completamente diferentes de como eram antes do ataque do elefante. Minha esposa e eu costumávamos fazer tudo juntos; trabalhávamos na lavoura juntos. Mas todas essas atividades foram interrompidas. Agora, preciso cuidar dela, e o desgaste mental que isso gera é algo que ambos sentimos”, disse Bandara, enquanto estava do lado de fora de sua casa, ainda inacabada.

Eles acordam às 4 da manhã para cozinhar juntos e preparar os dois filhos para a escola. Em seguida, Bandara junta-se a uma equipe de cerca de doze pessoas para realizar reparos em uma cerca elétrica de 14 km de extensão.

Assim como ele, centenas de famílias tiveram que adaptar suas vidas à presença dos elefantes. A escola local começa 30 minutos mais tarde do que o horário nacional — que é às 7h30 — e termina também mais tarde.

Os moradores evitam sair para o trabalho logo cedo, período em que os animais estão mais ativos. Casamentos e funerais terminam mais cedo, para que as pessoas consigam voltar para casa em segurança.

Bandara e seus vizinhos compartilham informações sobre a movimentação dos elefantes em um grupo de WhatsApp. Quando um animal aparece, eles se reúnem para espantá-lo — gritando e soltando fogos de artifício — e ajudam a levar eventuais feridos ao hospital mais próximo. Mas não há um fim à vista.

“Vinte anos atrás, não vivíamos essa situação, porque, do outro lado do reservatório, havia grandes florestas. Com o desmatamento, os elefantes começaram a se aproximar, e foi assim que esta vila passou a ser afetada”, explicou Bandara.

“Quando éramos crianças, precisávamos ir até um canto do reservatório para ver elefantes. Agora, à noite, são os elefantes que vêm nos ver.”

Bandara defende o fim do desmatamento — frequentemente realizado para dar lugar a atividades agrícolas — e a implementação de programas de reflorestamento mais eficazes; no entanto, pouca coisa tem sido feita em uma escala significativa. A cobertura florestal do Sri Lanka despencou de cerca de 70%, na década de 1920, para aproximadamente 16% atualmente.

Estima-se que até 70% dos 7.451 elefantes selvagens que habitam o Sri Lanka vivam, hoje, fora de áreas protegidas. Segundo o censo mais recente, a população desses animais também está em crescimento, registrando um aumento de 27% em relação a uma década atrás. Tudo isso aproximou humanos deles, com consequências drásticas para ambos.

“Não sinto ódio algum pelo animal. Ele estava com fome por causa das ações de nós, humanos. Entendo que os animais estão lutando por causa do comportamento humano”, disse Bandara.

“Vejo essa situação mais como um carma que minha esposa e eu precisamos enfrentar. O que eu ganharia odiando esse animal? Ele é inocente.”


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por tomasbraga.

Sair da versão mobile